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Arquivo da categoria ‘Poetas’

17 anos sem Pio Vargas

Pio Vargas em 1987

Pio Vargas ia ser o maior poeta de seu tempo. Mas morreu antes dele. Na manhã de 8 de março de 1991, tinha 26 anos. Sofreu uma parada cardíaca causada por uma overdose de cocaína. Ler mais

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A dor fundamental

Carlos Willian Leite

não há caminho e
nada valho
meu rir lascivo
é uma coreografia de enganos

eu cresci como crescem
os espantalhos
eu cresci sem planos

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Marcos Caiado

sem guizos
sem ondes
sem direção

nada sei das fontes
das frondes
ou da janela

tudo é neblina:
o topo, a arara
a aquarela.

atmosfera ferida
batendo
encontra a mão…

hoje, só depois
e em braile.
com profile em alemão…

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Os fantoches de vento

por Edival Lourenço

    Nós somos os homens ocos

    Os homens empalhados

    Uns nos outros amparados

    O elmo cheio de nada. Ai de nós!

T. S. Eliot

    Eis os fantoches de vento

    não aqueles homens ocos de Eliot

    esses eram extáticos, taciturnos seres

    habitantes de outro tempo - os fantoches

    de sopro, não do sopro imanente, divino,

    mas do sopro corrente, passante,

    o vento que alimenta

    o ego dos presentes ícones.

    Eis os fantoches de vento,

    na esquina, de alegria saltitante. Dê-lhes

    vento, ventoinha, senão os fantoches

    sem nada por dentro, murcham, dobram

    sobre si mesmos em profunda depressão

    como os homens que agora somos,

    não os circunspectos de Eliot,

    mas os frívolos de nosso tempo.

    Eis os fantoches de vento

    em sua pantomina humana, cuja alegria

    é tão mais frenética quanto mais vento

    lhes inocula o dínamo soprante

    a remedar com requintes de esmero

    os homens ocos pós-eliotianos

    com sua necessidade infinita de sopro

    em seu oco cotidiano.

    Eis os fantoches de vento

    empalados na vaziez

    frivolamente felizes.

    Os homens ocos de nosso tempo.

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To be or not to be?

Edival Lourenço

Nem me dou se sou sim ou se sou não

Já nem sei se sou grão ou se sou mó

Se sou um sal ou só um ser de pó

Ou se sou pó de luz do sol em grão

Nem me dou se sou vez ou se sou vão

Já nem sei se sou vau ou sou nó

Se sou um ser do mal ou de ter dó

Dum cão em si sem dom ao rés do chão

Quem diz que ser é ser o sal de Ló?

Quem diz que ser é ter o dom de Jó?

Quem diz que ser tem que ser ás e são?

Que me faz ser de Deus ou ser do cão?

É ter o Tao ou não ter mais que o pão?

— Em prol de ser eu só sei que sou só.

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Intuito

Hélverton Baiano

Tudo o que há nessa história

na ficção ou aparência

é quimera coincidência.

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Parceria poética

por Valdivino Braz

Via e-mail, Edival Lourenço enviou-me, em primeira mão, o recente poema de sua autoria, O molho de seus olhos. De imediato, pós-leitura, o poema inspirou-me e também criei um novo texto, que intitulei O cão de estimação. Daí propus ao Edival a parceria dos poemas neste meu Bazar, ele aceitou. Aqui dedicamos os poemas aos possíveis leitores.

*

O MOLHO DE SEUS OLHOS

De vinagre alho e óleo
Seus olhos têm um molho
Quando nele me molho
E vai oleando os refolhos

Da alcachofra dos miolos
O meu coração se espalha
Feito raiz no restolho
Qual fome de fogo em palha

Em lançamento de estolhos
Na ocupação de sua talha
Qual propósito de abrolhos
Jorrando sêmen de metralha

Ávido herdeiro de partilha
Num frenesi sem consolo
Golfando cria pela virilha
Que nunca mais a recolho

E mesmo que seja canalha
Ou equivalha a um trambolho
Segue o gume da navalha
Por atalhos que não escolho
*

O CÃO DE ESTIMAÇÃO

A vida é um crime, um crime colocar filhos no mundo. Contudo, vivemos e filhos fazemos. Assim nos autocondenamos ao inferno do amor eterno. Tal pai, tal filho, o estribilho do nosso inverno. E não é pelos filhos que repetimos o pecado das virilhas? Pai, mãe e filhos, o cão de estimação em família. O cão ladra, a caravana passa e a família se abraça. A paixão, os filhos da paixão, o risco que se corre: a paixão mata, os filhos (es)correm pelo mundo, e os pais (e nós), feito Atlas, levamos um mundo de filhos nas costas. Somos um saco de afetos feitos de carne e osso, com o mapa-mundi da semelhança em nossas omoplatas. Sua alma, sua palma. Os filhos são espelhos de nossas almas. E se o amor nos conforta, o cão já não importa muito. Sai pela porta e ladra para o mundo, enquanto a caravana passa e atravessa o coração do deserto.

fim

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Três instantâneos

por Lauro Marques

Felicidade de Pipa

A febre voltou.

Palavras podem ser deliciosas.

Comê-las.

Com meus olhos

soltos no espaço.

Entre o ziguezaguear feliz de uma pipa e
o trem passeando no
elevado

sobre a rua de carros empilhados.

Baterista cego

Gesto 1:
A vareta abre-se ao comando
do meu braço
desenrolando-se
em câmera lenta.

Antes retraída
em duas partes seguras
pela minha mão
(duas baquetas)
entre minhas pernas
de baterista
cego sentado.

Gesto 2:
Fixo a vareta no chão
meus olhos
(há muito tempo)
fechados
até que paralisem
o trem.

De manhã, ressuscitarei
(poema “gótico” de ano-novo)

Adoro destruir-me.
Destruir-me-ei mil vezes.
Mas não como Cristo.
Que não ressuscitou.
Jamais!
Ressuscitarei como a manhã
Que levemente beija a folha da maçã.
E cairei
de podre!

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