Arquivo da categoria ‘Lauro Marques’
Anywhere out of the world!

por Lauro Marques
― É melhor você aparar os pêlos do nariz antes de falar com o capitão ― disse George.
Marcelo não via nenhuma razão naquilo. Que diabos poderia isso afinal afetar em serem aceitos?
George mostrou o recorte de jornal: Navio de bandeira holandesa contrata tripulação por período determinado. Destino: Porto de Roterdã, com paradas em África e Europa. Requisitos: ser maior de idade e gozar de boa saúde física além de disposição para trabalhar no mar. Diversos postos e renumeração equivalente. Procurar o capitão do navio no porto da cidade.
Por via das dúvidas, Marcelo apanhou a tesourinha que lhe ofereceu George e enquanto mirava-se no espelho do banheiro ouvia George na cozinha preparando um lanche. George morava sozinho e tentava impressionar Marcelo com sua independência. A mãe cozinhava e mandava a comida para ele em tupperwares que eram consumidos semanalmente. Também semanalmente as roupas voltavam limpas e passadas a ferro. Marcelo nunca tinha preparado nem o café. George cortou uma salsicha em dois e jogou junto com a manteiga na frigideira fazendo subir um cheiro agradável. Ler mais
11 comentários »Bárbara e eu (sinopse para um conto ou relato)

por Lauro Marques
Nada demais. Apenas o fel e o mel do cotidiano. Nossos lençóis sendo dobrados pela manhã, marcando a alternância entre dia e noite. Suas saídas para lugar nenhum e as minhas andanças pelo bairro vazio, o relógio que não temos, esquecido. Um pouco lavar as louças (eu), varrer a casa (Bárbara), escutar música e adormecer nos seus braços ou não. Ficar só. Ler um conto de Cortázar ou Sciascia. Lembrar nosso mergulho na Ilha do Breu, nome sintomático, onde sintomaticamente desaparecemos do radar por dois dias seguidos. Bárbara sorri quando não chora. Fosse a vida um barco. Um mar calmo e nós dentro dele. “Pena que não é”, Bárbara sorri, quando não chora. E ali, esquecidos, os dias passam. Ali onde não estamos, Bárbara e eu. Apenas suspeitamos. Ler mais
Sem comentários »Três instantâneos

por Lauro Marques
Felicidade de Pipa
A febre voltou.
Palavras podem ser deliciosas.
Comê-las.
Com meus olhos
soltos no espaço.
Entre o ziguezaguear feliz de uma pipa e
o trem passeando no
elevado
sobre a rua de carros empilhados.
Baterista cego
Gesto 1:
A vareta abre-se ao comando
do meu braço
desenrolando-se
em câmera lenta.
Antes retraída
em duas partes seguras
pela minha mão
(duas baquetas)
entre minhas pernas
de baterista
cego sentado.
Gesto 2:
Fixo a vareta no chão
meus olhos
(há muito tempo)
fechados
até que paralisem
o trem.
De manhã, ressuscitarei
(poema “gótico” de ano-novo)
Adoro destruir-me.
Destruir-me-ei mil vezes.
Mas não como Cristo.
Que não ressuscitou.
Jamais!
Ressuscitarei como a manhã
Que levemente beija a folha da maçã.
E cairei
de podre!