Arquivo da categoria ‘Edival Lourenço’
O farsante das águas ilusórias

por Edival Lourenço
Foi em plena festa da padroeira que ele apareceu. Abriu a lateral da Besta e começou a instalar sua tranqueira: a mesa, que foi desdobrando com habilidades de mágico, uma corneta no suporte já instalado no teto do veículo, um microfone sem fio na lapela e resmungou algumas palavras de um idioma supostamente importado, testando o sistema de som.
Deixou como fundo uma música de número de magia, pegou uma caixa com furos de onde retirou meia dúzia cobras hipnotizadas, que ocuparam uma parte da mesa. Na outra parte colocou uma pirâmide de vidros transparentes com selo azul. Enrolou uma das cobras no pescoço e deu início aos trabalhos, num sotaque indecifrável: Ler mais
1 comentário »Os fantoches de vento

por Edival Lourenço
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
T. S. Eliot
-
Eis os fantoches de vento
não aqueles homens ocos de Eliot
esses eram extáticos, taciturnos seres
habitantes de outro tempo - os fantoches
de sopro, não do sopro imanente, divino,
mas do sopro corrente, passante,
o vento que alimenta
o ego dos presentes ícones.
Eis os fantoches de vento,
na esquina, de alegria saltitante. Dê-lhes
vento, ventoinha, senão os fantoches
sem nada por dentro, murcham, dobram
sobre si mesmos em profunda depressão
como os homens que agora somos,
não os circunspectos de Eliot,
mas os frívolos de nosso tempo.
Eis os fantoches de vento
em sua pantomina humana, cuja alegria
é tão mais frenética quanto mais vento
lhes inocula o dínamo soprante
a remedar com requintes de esmero
os homens ocos pós-eliotianos
com sua necessidade infinita de sopro
em seu oco cotidiano.
Eis os fantoches de vento
empalados na vaziez
frivolamente felizes.
Os homens ocos de nosso tempo.
To be or not to be?

Edival Lourenço
Nem me dou se sou sim ou se sou não
Já nem sei se sou grão ou se sou mó
Se sou um sal ou só um ser de pó
Ou se sou pó de luz do sol em grão
Nem me dou se sou vez ou se sou vão
Já nem sei se sou vau ou sou nó
Se sou um ser do mal ou de ter dó
Dum cão em si sem dom ao rés do chão
Quem diz que ser é ser o sal de Ló?
Quem diz que ser é ter o dom de Jó?
Quem diz que ser tem que ser ás e são?
Que me faz ser de Deus ou ser do cão?
É ter o Tao ou não ter mais que o pão?
— Em prol de ser eu só sei que sou só.
2 comentários »Hipocondríaco

Edival Lourenço
Alérgico à própria alegria
mas alegre por ser alérgico
o hipocondríaco é o avesso
do próprio avesso introverso
e nesse infernal paradoxo
vive em busca de um mal
que possa vir para o bem
mas com efeito colateral
mal que possa dar conta
do remédio que ele já tem
torce pra que sobrevenha
um desmaio catafórico
ou um choque anafilático
e possa sentir-se eufórico
pelo estado sorumbático.
3 comentários »Parceria poética

por Valdivino Braz
Via e-mail, Edival Lourenço enviou-me, em primeira mão, o recente poema de sua autoria, O molho de seus olhos. De imediato, pós-leitura, o poema inspirou-me e também criei um novo texto, que intitulei O cão de estimação. Daí propus ao Edival a parceria dos poemas neste meu Bazar, ele aceitou. Aqui dedicamos os poemas aos possíveis leitores.
*
O MOLHO DE SEUS OLHOS
De vinagre alho e óleo
Seus olhos têm um molho
Quando nele me molho
E vai oleando os refolhos
Da alcachofra dos miolos
O meu coração se espalha
Feito raiz no restolho
Qual fome de fogo em palha
Em lançamento de estolhos
Na ocupação de sua talha
Qual propósito de abrolhos
Jorrando sêmen de metralha
Ávido herdeiro de partilha
Num frenesi sem consolo
Golfando cria pela virilha
Que nunca mais a recolho
E mesmo que seja canalha
Ou equivalha a um trambolho
Segue o gume da navalha
Por atalhos que não escolho
*
O CÃO DE ESTIMAÇÃO
A vida é um crime, um crime colocar filhos no mundo. Contudo, vivemos e filhos fazemos. Assim nos autocondenamos ao inferno do amor eterno. Tal pai, tal filho, o estribilho do nosso inverno. E não é pelos filhos que repetimos o pecado das virilhas? Pai, mãe e filhos, o cão de estimação em família. O cão ladra, a caravana passa e a família se abraça. A paixão, os filhos da paixão, o risco que se corre: a paixão mata, os filhos (es)correm pelo mundo, e os pais (e nós), feito Atlas, levamos um mundo de filhos nas costas. Somos um saco de afetos feitos de carne e osso, com o mapa-mundi da semelhança em nossas omoplatas. Sua alma, sua palma. Os filhos são espelhos de nossas almas. E se o amor nos conforta, o cão já não importa muito. Sai pela porta e ladra para o mundo, enquanto a caravana passa e atravessa o coração do deserto.
fim
4 comentários »As virtudes do fumo

por Edival Lourenço
De tempos em tempos uma ala da humanidade se volta contra outra, de modo a considerá-la inferior ou indigna. Às vezes esses levantes ganham contornos extremamente dramáticos. É o que ocorreu, por exemplo, nas cruzadas, de cristãos contra muçulmanos. Na Santa Inquisição, de católicos contra hereges e bruxas. Na Segunda Guerra, de arianos (leia-se nazistas) contra judeus, ciganos, negros e gays. Na Revolução Russa, de proletários contra burgueses. Em cada um destes casos houve matança de milhões e milhões de pessoas. Ler mais
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