Arquivo da categoria ‘Cinema’
Os seis minutos mais belos da historia do cinema*

Por Giorgio Agamben
Sancho Pança entra num cinema de uma cidade do interior. Está procurando Dom Quixote e o encontra sentado isolado, fixando o telão. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de “galinheiro” — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Após algumas tentativas de chegar a D. Quixote, Sancho senta-se de má vontade na platéia, ao lado de uma menina (Dulcinéia?), que lhe oferece um lambe-lambe. A projeção começou, é um filme de época; sobre o telão correm cavaleiros armados, e num certo momento aparece uma mulher em perigo. De repente, Dom Quixote se ergue de pé, desembainha a espada, se precipita contra o telão e os seus golpes começam a cortar o tecido. No telão aparecem ainda a mulher e os cavaleiros, mas o corte negro aberto pela espada de Dom Quixote se alarga cada vez mais, devorando implacavelmente as imagens. No fim, quase nada sobra do telão, vendo-se apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O público indignado abandona a sala, mas no “galinheiro” as crianças não param de encorajar fanaticamente Dom Quixote. Só a menina da platéia o fixa com reprovação. Ler mais
Comments OffO lado A do cinema goiano

Tacilda Aquino
Carlos Willian, grande amigo, confesso que fiquei surpresa com seu artigo sobre a produção cinematográfica goiana no Jornal Opção. E juro que não entendi o motivo de sua ira. Acho que você foi duro demais, principalmente para um poeta que sabe que fazer cultura em Goiás, independentemente do tipo de manifestação artística, sempre foi um desafio.
Preciso discordar de sua afirmação: “Todavia, o mais trágico da conclusão é que não apenas esses quatro curtas são ruins. Em toda a história do cinema goiano, não se tem idéia de filme algum que tenha valido a pena ter sido feito!”. Preciso discordar porque escrevendo sobre cinema durante tantos anos no Jornal O Popular (de 1986 a 2006) acompanhei de perto a produção goiana e tive a felicidade de assistir muitos bons filmes produzidos não somente neste período, como nos anos do chamado cinema novo. O Azarento, Um Homem de Sorte, dirigidos por João Bennio, por exemplo. E o que dizer do grande José Petrillo que, como produtor, realizou grandes filmes como O Leão do Norte, de Carlos Del Pino, rodado em Pirenópolis, e que em 1974 foi responsável pela produção de A Lenda de Ubirajara, ganhador do prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Petrillo fez praticamente tudo à frente e atrás das câmeras. Dirigiu centenas de comerciais, produziu um sem número de documentários e conquistou várias premiações. O mais famoso é Cavalhadas de Pirenópolis, curta-metragem em 35 mm premiado em 1978 com o Troféu Candango no 11º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília. Ler mais
4 comentários »O CINEMA GOIANO E A SAGA DOS UMBIGOS ESPELHADOS

CENA 1 — ROBNEY BRUNO, ENTRA CORRENDO (MEIO DESAJUSTADO), GRANOFONE NA MÃO, IMPROVISA UM DISCURSO E CHORA
Caros amigos agcvistas, listeiros e simpatizantes.
Quando eu ouço um comentário como esses, do nobre escritor Carlos William Leite, sobre o cinema goiano, um turbilhão de sentimentos ambíguos (lê-se revolta e vergonha) me vem ao coração. Ambíguos porque todos nós sabemos que, apesar da luta que temos travado nesses anos todos, ele em parte, não deixa de ter razão. E não adianta aqui sermos protecionistas e querer justificar a qualidade dos nossos trabalhos pelas condições a que somos submetidos – corte em verbas e tempo escasso (lê-se Lei Municipal e Festcine - Isso sem falar na famigerada Lei Goyazes e Lei Rouanet, que há muito tempo não se tem notícia de algum projeto de cinema produzido por elas). Digo isso, porque o que chega as pessoas que não são da área de cinema é apenas o resultado de um trabalho, ou seja o filme pronto, e nunca a trajetória e as dificuldades que cada um de nós teve pra produzir. O que não deixa de ser natural, pois quando uma pessoa assiste a um filme ele não tem obrigação nenhuma e nem quer saber das condições em que eles foram feitos. Ler mais
15 comentários »É isto um homem?

por Enio Vieira
Batismo de sangue (2007), de Helvécio Ratton, é uma boa surpresa entre os inúmeros filmes brasileiros recentes que tratam do período da ditadura militar. Baseado no livro homônimo de Frei Betto, publicado em 1982, o filme recria o episódio da aproximação de frades dominicanos com a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella. Apesar de ser inspirada nas memórias de Frei Betto, a versão para o cinema priorizou dois outros personagens: Frei Tito (interpretado pelo ator Caio Blat) e o delegado Sérgio Paranhos Fleury (por Cássio Gabus Mendes).
O personagem Fleury, criado por Ratton, é muito interessante. Além de torturador-chefe da polícia paulista, ele aparece como uma espécie de guardião da “Pátria”. Numa cena, surge uma tabuleta atrás da mesa de trabalho dele. Nela, está escrita que não há direitos para os que estão contra a pátria. A supressão de direitos (no caso, a tortura) vira slogan para um estado de exceção oficial. Tudo vale para combater os inimigos do país que, no caso, são os comunistas, os frades socialistas. O corpo humano e a memória são os lugares em que a exceção vai se manifestar como violência. Ler mais
3 comentários »Desejo e Reparação

Herondes Cezar
O que é mais importante, a literatura ou o cinema? A velha e interessante polêmica ressurge sempre que um grande livro é transposto para a tela. É o caso do filme Desejo e Reparação (2007), adaptado do belo romance Reparação, do escritor inglês Ian McEwan. Terá sido a adaptação bem-sucedida? Ler mais
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