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Ricardo Guilherme Dicke: Prisioneiro de um ostracismo cruel

O escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke morreu às 10 horas da quarta-feira, 9, aos 71 anos.

A escritora Hilda Hilst disse que depois de Machado, seria ele o autor mais importante do País. O cineasta Glauber Rocha, no antigo programa Abertura, decretou: Ricardo Guilherme Dicke é o maior escritor vivo do Brasil e ninguém lê, ninguém conhece!. Quase três décadas depois, a frase de Glauber Rocha continua atualíssima. Aos 70 anos, Ricardo Guilherme Dicke continua relegado ao ostracismo. Em uma das últimas e raras entrevistas (republicada nesta edição) o filósofo nascido na Chapada dos Guimarães, especializado em Merleau-Ponty, fala Toada do Esquecido e Sinfonia Eqüestre…

  • Dicke: o vôo da eternidade
  • João Ximenes Braga
  • Em uma entrevista concedida por Hilda Hilst poucas semanas antes de sua morte. Convidada a enumerar os grandes escritores brasileiros, ela respondeu: “Sei que sou um deles. Guimarães Rosa, Machado de Assis… Tem vários. O Guilherme Dicke, que praticamente não é conhecido, também é um gigante”. Deliciosa imodéstia da entrevistada à parte, a frase deixou muita gente encafifada por conta da menção a um “famoso-quem?” entre Guimarães e Machado.

  • Primeiro romance foi premiado, em 1967
  • A citação ao mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke pode até ter soado natural aos leitores com idade, memória e/ou conhecimento histórico suficientes para saber que, em 1967, ele recebeu menção honrosa do Prêmio Walmap por seu romance de estréia, Deus de Caim, concedida por um júri que incluía Jorge Amado e Guimarães Rosa. E que, em 1977, seu segundo livro, Caieira, recebeu o Prêmio Remington e levou Glauber Rocha a classificá-lo, num programa de TV, como leitura obrigatória. E que, em 1981, seu terceiro título, Madona dos Páramos, também foi premiado, dessa vez pela Fundação Cultural do Distrito Federal.

    O acadêmico Antonio Olinto, que era organizador do Walmap e estava ao lado de Amado e Rosa no júri, é dos poucos que têm tudo isso em mente e não hesita ao ouvir o nome de Dicke.

    — É um grande romancista — diz Olinto. — É do tipo quase satânico, como um Rimbaud. Seus livros não são comportadinhos. Pena que depois ele sumiu. Estive em Cuiabá quando o Roberto Campos se elegeu senador pelo Mato Grosso (em 1982) e o Dicke me procurou. Depois não soube mais dele. Ele continua lá?

    Se até um de seus descobridores não sabe a quantas anda Ricardo Guilherme Dicke, não se pode culpar ninguém por não ter noção de quem ele seja. Os três romances mencionados, bem como O último horizonte, que foi seu último a ser lançado comercialmente por uma editora do eixo Rio-São Paulo (em 1988), estão esgotados e nunca foram reeditados, caindo no esquecimento.

    Mas depois da publicação da tal entrevista com Hilda Hilst, Dicke virou assunto. Sempre começava com alguém lamentando a perda da escritora para depois mencionar: “E esse Dicke, alguém já ouviu falar?”, em geral com timidez, temendo passar pela vergonha de ser o único a desconhecer o autor. Vi amigos fazendo buscas via internet ou sebos, ansiosos por ter em mãos um livro dele, sempre sem sucesso. Ouvi até a indagação: “Seria um fantasma da Hilda? Ela tinha jeito de quem conversava com fantasmas”.

    Dicke não só é real como, aos 71 anos, continua na ativa, em Cuiabá. Mas ao largo do mercado editorial. Algumas de suas obras já migraram para outras artes. É o caso de O salário dos Poetas, adaptada para o teatro e apresentada em 2005, em Lisboa.

    A ENTREVISTA

    Apesar de torrencial na ficção, Ricardo Guilherme Dicke é um homem de poucas palavras. Com dificuldades para se expressar ao telefone, a entrevista foi enviada por escrito. Ele queixa-se do “ostracismo cruel” a que foi relegado, atribuindo-o sobretudo a sua distância dos grandes centros, dizendo que o Mato Grosso natal é sua Finisterrae . Mas, em suas respostas, parece preferir aumentar que desvendar o mistério Dicke.

    O que acha de ter sido citado por Hilda Hilst ao lado de Rosa e Machado como um dos gigantes da literatura brasileira e, ainda assim, ser praticamente desconhecido?

    Senti-me surpreendido, pois é uma grande responsabilidade estar ao lado de Machado e de Guimarães Rosa. Surpreso por ser desconhecido, mas sabia que algum dia seria conhecido, irrevogavelmente.

    Você conhecia Hilda?

    Sim, conhecia-a pessoalmente. Gostávamo-nos fraternalmente. Éramos amigos e trocávamos correspondência, nos comunicávamos por telefone e conversávamos sobre tudo o que existe.

    O senhor tinha 31 anos quando seu livro de estréia, Deus de Caim, recebeu um prêmio cujos jurados eram Guimarães Rosa, Jorge Amado e Antonio Olinto. O que passou pela cabeça do jovem escritor?

    Tenho a declarar que tirei o quarto lugar nesse prêmio. A mídia fez o resto. E mesmo assim o livro teve grande projeção. Fiquei felicíssimo e sabia que havia aberto as portas da glória.

    O senhor chegou a conhecer Guimarães Rosa e Jorge Amado? Esses autores tiveram influência na sua obra?

    Cheguei a conhecer pessoalmente Guimarães Rosa. Uma vez conversei com ele ao telefone por duas horas seguidas. Jorge Amado pouco conheci. Só Guimarães Rosa teve influência na minha obra, mas com o tempo me afastei de seus livros, porque queria ser eu mesmo, sem influências.

    Depois disso, o senhor demorou dez anos para lançar o segundo livro, Caieira. Por que tanto tempo?

    Porque me esqueci de literatura. Comecei a fazer outras coisas que me fizeram olvidar da escritura.

    Caieira também foi premiado e ganhou elogios de Glauber Rocha num programa de TV. O senhor conheceu Glauber? Acha que a sua literatura tem semelhanças com os filmes dele?

    Não, não conheci Glauber, e acho que, sim, há semelhanças com os filmes de Glauber Rocha.

    Seu último livro a ser publicado por uma grande editora foi Último horizonte, há mais de 15 anos. Como um autor tão premiado de início ficou ao largo do mercado editorial?

    É porque me mudei para Mato Grosso. Aqui é o mesmo que um exílio para qualquer um que deseja ser escritor e não tem editoras grandes nem distribuição, o que é uma maldição para quem pretenda escrever.

    Então por que decidiu voltar para o Mato Grosso, em prejuízo de sua carreira literária?

    Porque me cansei do barulho formigante do Rio. Queria um pouco de paz. Gostei e fiquei. Nunca mais pensei em voltar ao Rio.

    Diz-se que o senhor bebia muito. Isso teria atrapalhado sua produção literária?

    Faz vinte anos que deixei de beber. Beber me prejudicou muito.

    A julgar por O salário dos poetas e Rio abaixo dos vaqueiros, seus livros são uma leitura complexa, dificilmente se tornariam sucessos de vendas. Acredita que seu afastamento das grandes editoras possa se dever também a isso?

    Escrevo porque gosto do modo como escrevo e, se não vender, isso para mim não tem importância nenhuma.

    Como tem sido sua relação com a crítica?

    A crítica em geral tinha sido boa comigo, depois mudou com relação à minha literatura: me ignorou durante todo esse tempo. Além da distância dos grandes centros, o silêncio da crítica me mantém preso num ostracismo cruel.

    Rio abaixo dos vaqueiros e O salário dos poetas têm déspotas como epicentro da narrativa. Um fazendeiro no primeiro, um ditador no outro. Por que o poder e a tirania o fascinam como tema?

    Poder e tirania são temas que separam estes dois livros dos outros que escrevi. Freudianamente falando, poder e tirania são temas que vêm da influência do meu pai, que era muito bravo. Os livros podem ter a minha crueldade, mas têm também muitas coisas generosas e boas.

    Em O salário dos poetas, há menções satíricas a um governador Cow-Cow e a um presidente Sarna. Trata-se do ex-governador do MT Carlos Bezerra e de José Sarney?

    O ex-governador e o ex-presidente são eles mesmos. Mas não sou um escritor político.

    Ainda falando sobre a temática desses dois livros? Quase não há duas páginas seguidas em que não se fale em morte, no prenúncio da morte, no medo da morte. Por quê?

    Porque a morte é o maior mistério que existe.

    Uma frase de Blaise Pascal, “O silêncio desses espaços infinitos me apavora”, é citada diversas vezes ao longo de O salário dos poetas. É uma síntese do peso que o horizonte do Pantanal e da Chapada tem na sua literatura?

    Essa frase de Pascal para mim resume o maior símbolo do mistério que existe no Universo.

    Além da literatura, como é seu cotidiano, o que o senhor faz atualmente, como vive?

    Sou (funcionário público) aposentado e vivo como um monge. Lendo e escrevendo.

    EXCERTOS

    PARA ELE, SEM NINGUÉM

    no quarto, só nós dois em perfeita solidão, lhe contei o que fiz ao capitão Ortizoga e ao Dr. Olam: que desci dos altos patamares do meu palácio em Santiago, e fui direto até lá, quando soube que estava preso nas estrebarias estabulares do quartel: vi-o: tremi de gozo violento, de prazer voluntário: ele amarrado, nu numa mesa, que matara um homem pensando que era eu, o presidente de Chilearaguay, assassinara-o e fugira, pegaram-no e trouxeram-no vivinho ante minhas recomendações pessoas, apesar dos seus protestos de inocência eterna: — quero-o todo, inteiramente vivo diante de mim, de cabo a rabo, e nu e estirado, amarrado numa mesa, as costelas aparecendo, vocês, bestiais carrascos e torturadores eméritos do meu cortejo triunfal, não façam mal nenhum a ele, que quero fazê-lo gemer pela sua mãe e pelo Deus que o vela lá do céu, ante minha particular tortura, que para ele deve ser uma honra: eu descer lá dos meus gabinetes tão altos, para vir, aqui em tão baixo, para comandar, eu mesmo a operação-vingança. Isto o que eu queria que Caravajo me confessasse, mas o subversivo não me confessou, eu queria fazer-lhe o mesmo que fiz ao capitão Ortizoga e ao Dr. Olam: ao seu lado todos os aparatos de tortura, os eletrodos, as picanas, os alicates, os paus-de-arara, o óleo para beber, os instrumentos refinados criados pela imaginação de psicanalistas escolhidos, tudo o que o santo baraço da Sacra Inquisição e a herança dos milicos do mundo me ensinou e um pouco mais, e deixou de legado e que eu estudei pacientemente nos porões dos quartéis e nas estrebarias estatais, para que sou militar, afinal?”.
    Trecho de Salário dos poetas

    ASSIM PARECENDO ELE SE

    encompridava derramando-se sobre a cama, com seu grande corpo magro, infinitamente sozinho, abandonado à mais profunda das solidões. Nem nome ele parecia ter com que pudesse ser chamado no mundo dos homens. Fizeram almoço e começaram. Depois vieram assentar-se nas cadeiras ao lado da cama onde se estirava o morto, enorme em sua magnificência, a grandeza silenciosa da morte. Iam enterrá-lo de tardezinha, pelas cinco horas, no cemiterinho do povoado. De vez em quando vinha alguém, que quem sabe tinha pouco o que fazer para satisfazer sua curiosidade da morte. O morto sempre fixo, o nariz curvo, os cabelos ralos, os olhos abertos, dentro das pálpebras enrugadas, nem era com ele. Era como se aquilo não tivesse acontecido absolutamente com ele. E não tinha mesmo, talvez, porque ele sorria levemente. Ou será que tinha? Quem o poderia saber? Ninguém, porventura, tudo sucede sem que se saiba a sombra invisível das coisas de onde vêm, causas guardadas no nó do nascedouro dos mistérios, no outro lado dos avessos dos talvezes das aparências escorregadias, limo e sedimento que o rio do tempo carrega, cego para as profundas. Como se não tivesse nada a ver com aquilo, morto estranho, desconhecido, incógnito, anônimo, clandestino, em sua absoluta solidão. Sob o telhado de telhas negras de picumãs o morto estirado, rígido, longitudinário, imenso, havia começado para ele a eternidade. A tarde foi caindo, lá fora o dia ardia. Calor, bochorno, mormaço, morrinha, modorra, uma preguiça infinita calcinava as ruínas do mundo sob o sol flamejante”.
    Trecho de Rio abaixo dos vaqueiros

    Obra:

    Deus de Caim (1968) Como o Silêncio (1968) Caieira (1978 Madona dos Páramos (1981) Último Horizonte (1988) A Chave do Abismo (1986) Cerimônias do esquecimento (1999) Rio Abaixo dos Vaqueiros (2001) O Salário dos Poetas (2001) Conjunctio Oppositorum ( 2002) Toada do Esquecido e Sinfonia Eqüestre (2006).



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