Os seis minutos mais belos da historia do cinema*

Por Giorgio Agamben
Sancho Pança entra num cinema de uma cidade do interior. Está procurando Dom Quixote e o encontra sentado isolado, fixando o telão. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de “galinheiro” — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Após algumas tentativas de chegar a D. Quixote, Sancho senta-se de má vontade na platéia, ao lado de uma menina (Dulcinéia?), que lhe oferece um lambe-lambe. A projeção começou, é um filme de época; sobre o telão correm cavaleiros armados, e num certo momento aparece uma mulher em perigo. De repente, Dom Quixote se ergue de pé, desembainha a espada, se precipita contra o telão e os seus golpes começam a cortar o tecido. No telão aparecem ainda a mulher e os cavaleiros, mas o corte negro aberto pela espada de Dom Quixote se alarga cada vez mais, devorando implacavelmente as imagens. No fim, quase nada sobra do telão, vendo-se apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O público indignado abandona a sala, mas no “galinheiro” as crianças não param de encorajar fanaticamente Dom Quixote. Só a menina da platéia o fixa com reprovação.
O que devemos fazer com as nossas imaginações? Amá-las, acreditar nelas, a tal ponto de as devermos destruir, falsificar (este é, talvez, o sentido do cinema de Orson Welles). Mas quando no final se revelam vazias insatisfeitas, quando mostram o nada de que são feitas, só então podemos descontar o preço da sua verdade, compreender que Dulcinéia — que salvamos — não pode nos amar.
* O breve texto de Agamben é um capítulo do livro Profanações, publicado no Brasil em 2007 pela Boitempo Editorial, com tradução de Selvino J. Assmann. O autor é italiano e um dos principais e mais influentes filósofos contemporâneos. Na juventude, Agamben interpretou um dos apóstolos do filme O Evangelho segundo São Mateus, de 1964, de seu grande amigo Píer Paolo Pasolini.