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O lado A do cinema goiano

Tacilda Aquino

Carlos Willian, grande amigo, confesso que fiquei surpresa com seu artigo sobre a produção cinematográfica goiana no Jornal Opção. E juro que não entendi o motivo de sua ira. Acho que você foi duro demais, principalmente para um poeta que sabe que fazer cultura em Goiás, independentemente do tipo de manifestação artística, sempre foi um desafio.

Preciso discordar de sua afirmação: “Todavia, o mais trágico da conclusão é que não apenas esses quatro curtas são ruins. Em toda a história do cinema goiano, não se tem idéia de filme algum que tenha valido a pena ter sido feito!”. Preciso discordar porque escrevendo sobre cinema durante tantos anos no Jornal O Popular (de 1986 a 2006) acompanhei de perto a produção goiana e tive a felicidade de assistir muitos bons filmes produzidos não somente neste período, como nos anos do chamado cinema novo. O Azarento, Um Homem de Sorte, dirigidos por João Bennio, por exemplo. E o que dizer do grande José Petrillo que, como produtor, realizou grandes filmes como O Leão do Norte, de Carlos Del Pino, rodado em Pirenópolis, e que em 1974 foi responsável pela produção de A Lenda de Ubirajara, ganhador do prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Petrillo fez praticamente tudo à frente e atrás das câmeras. Dirigiu centenas de comerciais, produziu um sem número de documentários e conquistou várias premiações. O mais famoso é Cavalhadas de Pirenópolis, curta-metragem em 35 mm premiado em 1978 com o Troféu Candango no 11º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília.

No início dos anos 90, por exemplo, me emocionei com a adaptação que Rosa Berardo (que mais tarde se tornaria doutora em Cinema e Audiovisual pela Sorbonne — Paris 3 — França e pós-doutora em Cinema e Audiovisual pela Université de Québec em Montreal — Canadá) fez do conto André Louco, de Bernardo Elis, um curta metragem em 35mm. A mesma Rosa, já doutora, realizou no ano passado, ao lado de Murilo Berardo, o documentário ecológico Cerrado: Quanto Custa?, sobre o avanço do agronegócio da cana-de-açúcar em Goiás. Um média-metragem que merece ser conferido.

Lembra do seu Ico? Aquele se que tornou conhecido em todo o Brasil graças a Regina Casé? Pois é, o velhinho de Pirenópolis foi tema de um filme que também não faz feio representando Goiás, recebendo prêmios em 12 festivais nacionais e o de melhor vídeo goiano do IV Fica. Sabe o nome dele? Icologia. Sabe quem dirigiu? Ângelo Lima. O artista que gosta de se fantasiar de Carlitos também fez recentemente O Circo e os Sonhos.

Você conhece Uma Só Vez na Vida, direção de Robney Bruno, com trilha sonora de Jarbas Cavendish e Coque do Buriti, de Gel Messis? Os dois filmes surpreenderam pela qualidade no Festcine do ano passado.

Você conhece Avá-Canoeiro - A Teia do Povo Invisível, dirigido por Mara Moreira, que narra o drama da nação indígena ameaçada de extinção? A Mara, que foi minha colega no curso de Jornalismo da UFG, nos anos 70 e 80, realizou um excelente documentário sobre a grande nação avá-canoeiro, que reinava absoluta até o início do século XVIII, e que hoje conta com apenas dois pequenos grupos familiares.

E tem vários filmes que honram o cinema feito em Goiás. A Visita Noturna, produzido, roteirizado e dirigido por Júlio Vann. Conhece? E Poupe-me dos Detalhes Sórdidos, de Marcela Borela — prêmio de Melhor Vídeo Universitário no 2º Festcine Goiânia?

Você foi muito duro ao dizer que “Todos os cineastas goianos deveriam mudar de carreira e parar de torrar o dinheiro público com essa coisa de cinema”. Você realmente acredita que as pessoas deveriam desistir de seus sonhos? Rosa Berardo deveria ter desistido do cinema em 1990, quando fez André Louco? Petrillo deveria ter desistido de fazer cinema e ficado somente produzindo filmes publicitários? João Bennio deveria ter se contentado em trabalhar ao lado de grandes nomes do cinema nacional e desistido de investir na carreira de diretor? Não. Realmente não acredito que você pense assim. “A gente precisa sonhar, ainda que seja um sonho impossível”, como diz a letra da música The Impossible Dream, que Joe Darion escreveu para o musical O Homem de La Mancha.

E mais do que sonhar, é preciso fazer com que esse sonho se torne realidade. Sabe como? Tomando como ponto de partida a máxima de Jean Cocteau: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”. Cocteau, que foi poeta, escritor, pintor, dramaturgo, cenógrafo, escultor, fez carreira no como ator e diretor de cinema. E conhecia todos os desafios de se fazer arte.

Não, Carlos Willian, “cinema aqui (não) é farra”, como você afirma. Em minha avaliação, o cinema goiano ainda é incipiente, mas engatinha com o ânimo de uma nova geração de egressos de cursos de comunicação. É verdade que a qualidade da maioria dos trabalhos produzidos deixa a desejar quando analisamos mais profundamente a linguagem cinematográfica e as condições de produção.
E a maioria dos cineastas goianos não “torra o dinheiro público com essa coisa de cinema”. A verdade é que não existe apoio necessário às condições materiais para se fazer um filme de forma profissional, com caixa para se pagar uma equipe e aluguel de equipamentos.

Poucos são beneficiados por leis de incentivo que lhes dão a chance de realizar suas primeiras incursões na área. Alguns passaram por escolas de cinema, como a Skopos, criada por Rosa Berardo em parceria com a Cara Vídeo dentro do programa de pós-graduação em cinema da Faculdade Cambury. Outros são formados em Comunicação Social — Habilitação em Jornalismo, pela UFG, e optam pela área de cinema. E ainda há aqueles que fazem cinema sem ao menos passarem por oficinas como as promovidas pelo Instituto Icumã e pelo FICA, que apesar de compactas e de curta duração colocam muitos aspirantes a cineastas em contato com a linguagem do cinema.

CW, caro amigo, confesso também que ao ler o seu comentário sobre o estado de sonolência provocado pelos filmes, me lembrei que já dormi solenemente em muitos filmes de Jean-Luc Godard, aquele cineasta francês reconhecido por um cinema vanguardista e polêmico, que tomou como temas e assumiu como forma, de maneira ágil, original e quase sempre provocadora, os dilemas e perplexidades do Século XX.

E sobre os diretores dos filmes mencionados por você, pode até ser que eles “tragam sempre uma cartilha teórica debaixo do braço”. Mas é possível que eles o façam justamente para que, conhecendo bem a linguagem do cinema, possam usá-la a seu modo, sem seguir padrões e até mesmo ousando subvertê-la.

E quando você chama os curtas goianos de filmes B, é preciso lembrar o real significado desta classificação. O “B” não é necessariamente um filme horrível ou (B)izarro. A classificação, na verdade, se refere a produções realizadas com baixo orçamento. Muitos cineastas B também têm seus méritos e conseguem grandes feitos com pouco orçamento e muita imaginação.



4 respostas para “ O lado A do cinema goiano ”

  1. Beto Leão Fevereiro 25th, 2008 14:33

    Cinema goiano marca presença nos festivais

    Beto Leão (*)

    Pouco a pouco, Goiás vai conquistando o espaço que lhe cabe no cenário cinematográfico nacional. Sem muita tradição na arte de fazer filmes, os goianos têm aperfeiçoado a cada dia as suas técnicas, idéias e narrativas audiovisuais, o que tem permitido uma maior visibilidade das produções goianas nos festivais nacionais e internacionais.
    Em 1999, ano em que o FICA estreou no calendário dos grandes festivais internacionais, o cineasta João Batista de Andrade prefaciou meu livro Bennio - Da Cozinha para a Sala Escura, em que demonstrava seu “espanto com a absoluta ausência de um cinema goiano”. De acordo com o pensamento na época do então coordenador geral do Festival Internacional de Cinema e Video Ambiental, “nos últimos anos, lutando contra todas as regras e, mesmo, contra a má vontade dos que pensam controlar a cultura brasileira, o cinema brasileiro saiu do eixo Rio-São Paulo e mostrou que criatividade existe onde for possível exercitá-la. Nesses anos tenho visto, tanto no mercado quanto nos festivais nacionais e internacionais (com sucesso), filmes de Pernambuco, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Minas, Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo e tantos outros estados, onde, aliás, houve a preocupação de se criarem apoios locais. E nada de Goiás.”
    Já naquele primeiro ano do FICA, em que participaram apenas cinco produções goianas, um convênio entre a Agepel (na época Fundação Cultural Pedro Ludovico) e a ABD-GO possibilitou a finalização de três curtas-metragens, em 16mm e 35mm - Santo Antônio dos Olhos d’Água, de Kim-Ir-Sen, Bubula, o Cara Vermelha, de Luiz Eduardo Jorge, e O Pescador de Cinema, de Angelo Lima -, dois dos quais participaram da mostra competitiva, sendo que um deles (Bubula, o Cara Vermelha), fez carreira nacional e internacional, ganhando diversos prêmios. Os dois últimos mais A Lenda da Árvore Sagrada, de Eládio Garcia Telles, prêmio de melhor produção goiana no 1º Fica, foram selecionados no 10º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, e na Jornada Internacional de Cinema da Bahia.
    Finalmente, o Brasil estava começando a conhecer um pouco do cinema goiano, já que a última aparição em festivais nacionais havia acontecido em 1978, quando José Petrillo saiu com o troféu Candango de melhor curta-metragem em 35mm com seu Cavalhadas de Pirenópolis. Passados esses oito anos desde a primeira edição do FICA, a realidade é bem outra para o audiovisual goiano. No próximo mês de julho, a IV MoVa Caparaó - Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó, festival capixaba que dedica todos os anos uma janela aos filmes premiados no FICA, apresenta em sua mostra competitiva nacional seis produções de Goiás, das treze produções selecionadas. São eles: Coque do Buriti, de Gel Messias; Flower Power, de Sérgio Valério, Lamento, de Kim-Ir-Sen Pires Leal; É da Raiz, de Ângelo Lima, e Minha Árvore, de Andréia Miklos Mocó.
    Em maio último, o 4º Festival de Cinema de Maringá apresentou em sua mostra competitiva seis produções goianas: 14 Bis, de Guilherme Gardinni; A Resistência do Vinil, de Eduardo Castro; Coque do Buriti, de Gel Messias; É da Raiz, de Angelo Lima, Goiânia - Sinfonia da Metropóle, de Rodolfo Carvalhaes; O Filme que Nunca Existiu, de Sérgio Valério. Rapsódia do Absurdo, de Cláudia Nunes, participou do Cine PE 2007, em abril, e do 14º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, em maio.
    As mostras e festivais, independentemente de se ganhar prêmios ou não, são muito importantes para qualquer cinematografia porque permite o contato do público com diferentes estéticas e linguagens. Na medida em que o cinema goiano está inserido nesse contexto, ele só tem a crescer, uma vez que recebe críticas de outros profissionais do meio e os realizadores podem comparar o que estão fazendo, tanto em termos de estruturação de roteiros quanto na própria estrutura narrativa, com outros filmes/vídeos do resto do país.
    Com o advento do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o Estado deu o pontapé inicial para tornar-se um pólo de exibição e de produção do cinema goiano. Em suas nove edições, o FICA vem estimulando os cineastas goianos a produzirem mais e melhor a cada ano, ainda que as produções locais, em sua maioria, careçam ainda de aperfeiçoamento técnico e artístico, principalmente no gênero ficção, mas também no documentário. O FICA tem demonstrado que o cinema perdeu a ingenuidade diante do grau de perigo que as agressões descontroladas do homem têm causado ao meio ambiente, principalmente no século passado, cujas conseqüências estamos vendo refletidas no atual milênio. Uma prova disso é que o tema das mudanças climáticas é o mote dominante na atual edição do festival, tanto nos filmes quanto no Fórum sobre o Clima, que trará a lume os impactos na biodiversidade e no meio ambiente do continente sul-americano, com particular ênfase no território brasileiro.
    Nesse contexto, para que as produções goianas possam competir em pé de igualdade com os filmes ambientais nacionais e estrangeiros é necessário que os realizadores tenham pleno domínio das técnicas narrativas cinematográficas de uma maneira geral. A fim de fazerem filmes ambientais competitivos, os realizadores goianos têm de exercitar também a feitura de filmes ficcionais que dialoguem de forma intelegível com o público.

    __________
    (*) Beto Leão é jornalista, pesquisador de cinema e documentarista. Atual presidente da ABD-GO, escreveu os livros Bennio – Da Cozinha para a Sala Escura, O Cinema Ambiental no Brasil, Cinema de A a Z – Dicionário do Audiovisual em Goiás, Goiás no Século do Cinema (em parceria com Eduardo Benfica) e é um dos autores da Enciclopédia do Cinema Brasileiro.

  2. Polli Di Castro Fevereiro 25th, 2008 16:14

    ótima resposta! à altura do que ele mereceu ler.
    comentários de Beto e Tacilda responderam bem o que o equivocado Willian vomitou.
    Que a polêmica continue pra que as pessoas se movimentem em prol de mais e melhores filmes em nossa região.

  3. Eduardo Fevereiro 26th, 2008 09:28

    Polli Di Castro, que gracinha de nome. Escute com serenidade as críticas ao cinema goiano. No seu comentário você usou a expressão vomitou! Ora, o que mais além de vomitar os cineastas goianos fazem. Como seu comentário foi bastante incisivo, eu te pergunto?

    Você está bêbada ou é autista?

  4. Mário Zeidler Filho Fevereiro 28th, 2008 14:13

    Olha, gosto do Julio Vann e o considero um artista sério e talentoso - acompanhei, na escola técnica, vários trabalhos dele - mas dizer que “Visita Noturna” é um bom filme não é só de se estranhar, é de morrer de rir.

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