O CINEMA GOIANO E A SAGA DOS UMBIGOS ESPELHADOS

CENA 1 — ROBNEY BRUNO, ENTRA CORRENDO (MEIO DESAJUSTADO), GRANOFONE NA MÃO, IMPROVISA UM DISCURSO E CHORA
Caros amigos agcvistas, listeiros e simpatizantes.
Quando eu ouço um comentário como esses, do nobre escritor Carlos William Leite, sobre o cinema goiano, um turbilhão de sentimentos ambíguos (lê-se revolta e vergonha) me vem ao coração. Ambíguos porque todos nós sabemos que, apesar da luta que temos travado nesses anos todos, ele em parte, não deixa de ter razão. E não adianta aqui sermos protecionistas e querer justificar a qualidade dos nossos trabalhos pelas condições a que somos submetidos – corte em verbas e tempo escasso (lê-se Lei Municipal e Festcine - Isso sem falar na famigerada Lei Goyazes e Lei Rouanet, que há muito tempo não se tem notícia de algum projeto de cinema produzido por elas). Digo isso, porque o que chega as pessoas que não são da área de cinema é apenas o resultado de um trabalho, ou seja o filme pronto, e nunca a trajetória e as dificuldades que cada um de nós teve pra produzir. O que não deixa de ser natural, pois quando uma pessoa assiste a um filme ele não tem obrigação nenhuma e nem quer saber das condições em que eles foram feitos.
Mas querem saber de quem é a culpa de tudo isso? Pasmem. De nós mesmos. De cada um de nós, que estamos apenas preocupados em produzir olhando para o nosso umbigo e não aceitamos um monte de coisa que poderia, não só melhorar a qualidade mas como alavancar a quantidade de projetos produzidos. Entre elas destaco aqui duas ações/atitudes que se fossem tomadas por cada um de nós, poderia fazer com que essa visão distorcida da nossa realidade fosse mudada:
1º - Críticas: Poucas pessoas em nosso meio aceitam ouvir ou fazer críticas sobre o cinema que produzimos, com aquele velho e ultrapassado pensamento de que “criticar o cinema goiano é fazer um desfavor ao próprio cinema goiano”. Hora dá licença, esses dinossauros de plantão, que enfiem suas latas de negativo (lê-se conteúdo cinematográfico), no cú e vão filmar no Alasca se não querem ouvir e nem fazer críticas sobre o que produzem.
2º - Engajamento: É histórico isso. Enquanto poucas pessoas lutam pelo crescimento e melhoramento das condições de se produzir cinema em Goiás (lê-se políticas públicas), outras ficam na espreita, só esperando para dar o bote, e conseguir uma verba para por no bolso e fingir produzir algo que detona com a nossa imagem – É assim no Edital do Festcine e também é assim na Lei Municipal, e desafio a provarem o contrário - Já disse isso uma vez, desde a época do Grocine, e repito agora em alto e bom som: ENQUANTO NÃO ORGANIZAMOS DE VEZ A NOSSA CLASSE, NUNCA TEREMOS FORÇA E NEM SEREMOS RECONHECIDOS PERANTE AO PODER PÚBICO E A SOCIEDADE. Mas como fazer isso, perguntam vocês? Simples. Obriguem, de alguma forma, com que todos aqueles que estejam produzindo cinema independente em Goiás, estejam engajados em alguma Associação e que paguem as suas taxas e anuidades.
Ao meu ver, e já pedindo desculpas pelo desabafo, estas são as únicas saídas para que possamos melhorar, não só os nossos projetos como a nossa imagem perante a sociedade em geral. Enquanto isso não acontecer vamos ser obrigados a engolir como verdade, exatamente o que esse nobre escritor/jornalista medíocre e desinformado que ninguém nunca ouviu falar, tem a dizer sobre o cinema goiano.
CENA 2 — RODRIGO CÁSSIO, (O VINGADOR DO CINEMA GOIANO), SURGE DOS CÉUS DE FACÃO EM PUNHO, HISTÉRICO,
Robney: Entendo o que você quer dizer, mas discordo que os realizadores goianos tenham culpa pela ignorância do Carlos William Leite. O texto dele é mais um exemplo de crítica cultural mal feita, baseada em impressionismos e velhos preconceitos. E essa má qualidade deve ser atribuída ao próprio Carlos Leite, e a mais ninguém.
Carlos Leite foi agressivo e cínico ao expor opiniões tão incisivas sobre um assunto que, pelo resultado, ele não tem muita competência para opinar. Se você, como realizador, se sente revoltado e envergonhado com essa caracterização do cinema goiano, eu, como jornalista e leitor de teorias do cinema, também me sinto envergonhado pela mediocridade do que é publicado por aí.
CENA 3 — ANNA RAQUEL, A LOUQUINHA, CONTINUA RINDO — MAS PARECE NÃO TER ENTENDIDO A PIADA
Do caro Carlos Willian Leite, “expressivo nome da geração emergente”, concordo com uma coisa: a opinião dada sobre as pessoas que fazem cinema “Normalmente, são afetadíssimas e com pouca educação embora tragam sempre uma cartilha teórica debaixo do braço, aquele papo autista-lacaniano”…, e isso de uma forma geral, no Brasil, e já digo de ante mão, a maioria das pessoas que trabalhei não são assim, porém, quem é, é mesmo! Opinião minha!!!!
Razão pela qual Robney, acredito que o Grocine não tenha dado certo! Não adianta dizer que as pessoas devem se organizar, pagar taxas e anuidades, se maioria delas não está preparada para isso. Não se ajuda quem não quer ser ajudado. Querendo ou não, os cineastas goiânos, a maioria deles, não tem maturidade para formar uma classe forte. O ego acaba sempre falando mais alto e sabemos disso, mas todos disfarçam!
Tb da matéria do “grande jornalista/poeta/etc.,etc.,etc. , concluo apenas o que parece ser óbvio para qualquer um que tenha feito o mínimo/quase nada e amoristicamente (como eu) no cinema goiano: esse cara nunca fez um filme! E se “fez”, provavelmente foi com muito dinheiro conseguido sem esforço, sem editais, dado por algum mecenas(ainda existe?), muito material, tecnologia boa, e todas as demais coisas que sabemos ser necessárias, pq sinceramente, ele não sabe como é difícil captar, como é difícil produzir e conseguir as coisas para que o filme saia e principalmente, como é CARO fazer filme!!!! Só um desinformado desses para achar que a galera que faz cinema em Goiânia, seja c todas as Leis e o Festcine aí, estão mamando nas tetas do governo, gastando dinheiro do contribuinte. Foi por acaso que ele se esqueceu que todos cineastas pagam impostos? Deve ter sido pura conveniência!
Nem tudo nessa matéria deve ser levado a sério, aliás, a maior parte dela!
CENA — 4 — ALINE, CHICOTE NA MÃO, ESBRAVEJANDO, BABANDO
Discordo totalmente do articulista.
Até porque eu vi três dos quatro filmes citados e acompanhei os esforços feitos em duas dessas três produções.
Falar que fazer cinema aqui em Goiás é fácil foi o mais lamentável de toda essa crítica mal feita do articulista. Extremamente mal feita. Fazer VÍDEO em Goiás é fácil. Fazer vídeo em qualquer lugar que se tenha uma câmerazinha digital + um Movie Maker da vida é muito fácil. Eu quero ver é fazer cinema, produzir de verdade.
Fazer um documentário com um roteiro e tema tão bacanas como o que foi feito em Além dos Outdoors é simples e fácil? Tudo bem, então por que é que não havia sido feito antes? Por que é que grande parte dos jurados do FICA se encantaram com essa produção feita por ‘meros e inexperientes’ estudantes de jornalismo? Será mesmo que aqueles mestres, doutores e críticos de altíssimo escalão não entendem nada de cinema? O cinema goiano é experimental sim. Exatamente porque é foda DEMAIS fazer cinema aqui. Quem acha que o governo dá de bandeja apoio tá redondamente enganado. Só existe cinema em Goiás porque poucos tiveram o ânimo e vontade pra correr atrás, pra estudar.
Eu também gostaria de saber qual foi o nível de critério e comparação que o articulista usou pra dizer que tudo que é feito aqui é lixo. Cinema clássico? Escola Hollywoodiana? Steven Spielberg? Se foi isso então é a mesmíssima coisa de criticar Death Metal e Axé levando em conta os mesmos padrões. Será que ele está comparando nossos filmes às produções feitas com orçamentos três, quatro, cinco vezes maiores do que nossos diretores conseguem arrecadar aqui?
Dizer que ficou com sono, que achou os filmes ruins, que tudo é uma droga é puro direito do articulista. Eu mesma não gostei de muita coisa que vi no FICA e em Mostras Goianas. O absurdo é eu ter que ler que fazer CINEMA em Goiás é baba.
CENA 5 — HELOÁ — DISSIMULANDO — DISSIMULANDO — DISSIMULANDO
É… É foda DEMAIS fazer cinema aqui, de fato.
É como a Aline disse. Opiniões a parte, fazer uma crítica sobre o contexto da produção goiana em cinema sem conhecer esse contexto é fazer uma crítica mal feita e facilmente questionável.
E acho que existe consciência do tipo de cinema que se faz aqui mas opções de produção são poucas e a grana é curta. A galera faz com o que tem em mãos. E tem outro jeito?
CORTA…MAS CORTA PRA SEMPRE
15 respostas para “ O CINEMA GOIANO E A SAGA DOS UMBIGOS ESPELHADOS ”
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Kakakakkakkakkakkakkakkaka.
Eu já tinha visto.
Caro Carlos Willian:
Se você já estudou lógica, sabe que essa montagem de textos é uma falácia. Ela se chama Ad Hominem, e consiste em desqualificar o que as outras pessoas dizem por meio de ataques pessoais. A maneira mais ingênua e artificial de se fazer isso é como você fez em relação a mim: usando palavras de baixo calão.
Contudo, eu entendo que você tenha se ressentido. Por educação, talvez eu deva me desculpar por tê-lo considerado um crítico cultural ignorante, cínico e agressivo. Sinceramente eu me desculpo, mas não por pensar diferente agora (muito pelo contrário, o seu Ad Hominem parece um sintoma óbvio de falta de habilidade com métodos mais racionais). Eu me desculpo, sim, por não ter exposto, junto com o que eu disse, os motivos que me levaram a concluir que você, como crítico cultural, é exatamente da maneira como qualifiquei.
Pois nada do que eu disse a respeito do seu texto é gratuito, e eu tenho argumentos claros e suficientes para defender que o método que você usou foi extremamente infeliz, de maneira que, no fundo, você se mostrou um crítico tão vazio quanto os filmes goianos que acredita ter analisado - supondo aqui que eles sejam mesmo vazios, e que o seu juízo foi acertado. Vale dizer que eu jamais pretendi acatar ou recusar o seu juízo, pois me interesso mais por uma mudança de perspectiva na sua análise, e menos pelas opiniões simplórias que tentam dividir as coisas em boas e ruins, certas e erradas, bem-sucedidas ou vazias.
Diferente de você, eu não recorri a uma falácia de ataque pessoal. Eu apenas expus um ponto de vista sobre a sua atividade como crítico. De maneira alguma quis me refirir a você como pessoa, de modo que eu me sinto ofendido e desanimado diante do seu ataque contra mim, visivelmente pessoal. Eu toparia redimir a ausência dos meus argumentos em uma discussão sadia e produtiva sobre o que é uma boa crítica cultural, mas, pelo que vejo aqui, não sei se você se interessaria por isso. Assim, não posso fazer nada além de observá-lo optar pelo fechamento das idéias e a auto-defesa falaciosa.
Atenciosamente,
Rodrigo Cássio
Caro Rodrigo,
Talvez justamente pelo fato de ser uma pessoa inteligente, deveria ter entendido que minha “crítica” sobre cinema goiano é precária. Uma brincadeira. Não quis analisar a produção cinematográfica goiana. Quis provocá-la. Você ficou parecendo àqueles meninos emburrados que não entendeu a piada.
Não é preciso ser formado em cinema para ter opinião.
De toda forma te peço desculpas, não por ter mudado de idéia com relação ao que penso, mas por ter feito uma piada de mal gosto no blog usando seu nome. Que aliás já foi retificada.
Respeitosamente
cw
De fato, não entendi como uma piada. Nem no jornal, nem aqui. Mas tudo bem, se você me diz que esse é o espírito por trás dos textos, nós não temos verdadeiramente um problema.
Com cumprimentos,
Rodrigo.
CW, sabe o quanto te admiro. Continua sendo meu poeta preferido. Só que dessa vez você exagerou. Goiânia não é Brasília.
Carlos,
a provocação vem num momento oportuno porque nunca se falou tanto sobre o cinema goiano (uma entidade bastante desconhecida) como agora. Falem mal, mas falem desta entidade, que precisa possuir o público local. Precisa ser mastigada, deglutida e regurgitada para que possa existir. O diagnóstico dos “umbigos espelhados” procede, principalmente quando percebemos que o público do cinema goiano são seus próprios realizadores, como bem disse o Erasmo Alcântara depois do último Des.Bitola. Aliás, muitos destes realizadores não têm a pretensão de fazer o “crème de la crème”, mas fazer o possível dentro de suas limitações, apenas para satisfazer uma vontade, apenas para cumprir suas intenções.
Esse papo de “crème-de-la-crème” é bastante sugestivo. Lembra filme pornô. Taí uma coisa que dá dinheiro mas que ninguém ainda fez por aqui. Quem sabe uma vigorosa indústria de filmes “crème-de-la-crème” não poderia impulsionar um cinema goiano auto-sustentável, mais independente?
Cipriano
Cipriano,
que não sei se é o mesmo que imagino. Minha intenção desde o início não foi analisar o cinema goiano, como já disse. Para gostar ou não de cinema — não é preciso ser formado em cinema. Assim como para gostar ou não de futebol — não é preciso ser um jogador de futebol.
Entre os anos de 1997 e 2002 ganhei quase todos os grandes prêmios nacionais de poesia: Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Salvador, Fortaleza, Porto Alegre e Brasília. No entanto, mesmo com mais de 100 prêmios não consegui me tornar um poeta. Quando participava e não ganhava, me desesperava. O resultado disso: não escrevo mais. Meu sonho acabou. Ou minha ilusão acabou.
Festivais em excesso criam falsos gênios. Festivais localizados, como os de Goiás, passam necessariamente por fatores políticos e pessoais. Quando há um excesso: deixamos de avaliar filmes para avaliar cineastas e pessoas. Aí entra aquele pequeno detalhe: ojerizas pessoais e coisas do gênero. E nem sempre ganha o melhor.
Também não é apenas no cinema goiano que não existe público. Os livros lançados em Goiás são basicamente consumidos por parentes e amigos. Sabia que Goiás é o estado que mais lança livros no Brasil, talvez no mundo. Só no ano passado foram quase quatro mil livros. A facilidade de fazer livros, filmes, espetáculos… Nivela todo mundo por baixo.
Quanto aos filmes pornôs, se engana. Existem estúdios de filmes pornôs em Goiânia!
Também sei de histórias (sei de ouvir falar) de garotas que tiveram que fazer uma espécie de “test drive” antes de participarem de alguns filmes daqui. Não sei se é verdade. Mas essa coisa de pornô às vezes está muito mais próximo do que imaginamos. Com um único detalhe: as seções acontecem antes dos filmes serem rodados, na escolha do elenco.
Abraço do
cw
Fazem filme pornô em Goiânia??
Isso é uma belísisma pauta de reportagem. Quem faz? Onde vende?
Um “cinema goiano” poderá ter essa denominação quando houver um Cláudio Assis local. Com “Amarelo manga” e “Baixio das bestas”, feitos em Pernambuco, Assis faz uma das obras mais interessantes no Brasil.
A inexistência de um público para o cinema goiano está, normalmente, relaciona à ausência de condições melhores de produção (seja $ ou qualificação técnica). Penso que é legítimo e importante que os realizadores procurem melhorar essas condições. Porém, acho que esse movimento - e a discussão que o acompanha - não poderia se transformar em um critério de avaliação dos filmes, separando os que “têm qualidade” dos que “não têm qualidade”. Há nessa maneira de julgar um problema de formação do público que não deve ser ignorado.
É isso que incomoda no texto original do Carlos William, tenha sido ele uma mera provocação ou não. Os critérios que o texto usa para dizer que os filmes são ruins são os mesmos critérios que direcionam o grande público para o cinema comercial. Não acho que os objetivos que ele constatou ausentes nos filmes sejam os mais importantes quando se trata de qualificar o que é feito. Por exemplo: fazer filmes que possam ser exibidos na TV (por uma adequação estética/linguística) ou que não provoquem sono nos espectadores (o que me faz imaginar a “estética do espanto” que fundamenta Hollywood). Esses objetivos são bons se o que se deseja é a implantação de uma indústria, mas isso não tem necessariamente a ver com o valor dos filmes enquanto obras de arte.
E aí eu acho que existem, sim, filmes muito interessantes produzidos em Goiás. “Rapsódia do Absurdo”, por exemplo. Esse filme não poderia ser avaliado da mesma forma que “Escadaria”, pois são propostas de cinema totalmente diferentes. Fazer notar essas diferenças entre os filmes pode ser tão importante, para que o público do cinema goiano cresça, quanto tentar criar condições de produção que, inevitavelmente, estarão vinculadas a um mercado, forçando os filmes a responderem a uma padronização estética.
O Robney Bruno tem um blog cujo nome é algo como “eu quero fazer um longa”. Ele tem todo o direito de querer isso, e, como público interessado, eu o apóio completamente! Mas me lembro de uma fala de Sheldon Renan, que quer dizer mais ou menos o seguinte: “Sabe por que a maioria dos filmes duram em média 100 minutos? Porque se durassem mais, os espectadores se sentiriam desconfortáveis na sala de cinema. Se durassem menos, achariam que não durou tempo suficiente para valer a pena o investimento de pagar o ingresso”.
O cinema não pode se reduzir a atender um tipo de espectador que, na verdade, é um investidor, um consumidor. É claro que o projeto de fazer um longa é bom e louvável, mas não pode ser uma condição de existência do cinema. Seria ótimo se essa mentalidade dominasse entre realizadores e público. Por isso, acho válido celebrar filmes que se reconheçam como curta-metragens, tal como o próprio “Rapsódia do Absurdo”. Trata-se realmente de um filme que não vai passar na TV comercial. Mas ele não deveria ser diferente só por causa disso. Bom seria é que a TV fosse diferente.
Então, vamos aumentar o público. Mas qual é o público? O papel das pessoas que se propõem a pensar e opinar sobre o cinema goiano é fundamental nesse aspecto, pois são essas pessoas que podem, ainda que minimamente, despertar esse público para o fato de que cinema não é só o que passa na Tela Quente.
Abraços,
Rodrigo Cássio
Carlos, já que isto aqui virou um grande fórum para o debate do cinema goiano, vai mais algumas observações:
O problema de muita estrela pra pouca constelação é o mesmo, né? (no cinema, na literatura, etc). Um pouco de humildade seria bom pra todo mundo. Principalmente da parte de quem te entregou o envelope com os quatro curtas que te deram sono. Dizer que estes filmes são o “crème de la crème” é um exagero - como tua provocação também o foi. Sei que quem te entregou os filmes falou isto com a melhor das intenções. Relendo o que você escreveu no Opção, concordo que alguns “cineastas” goianos são autistas e iludidos. Na cabeça de alguns, ser “cineasta” é ser alguém especial, quase que pré-destinado a fazer algo muito especial e pioneiro em Goiás. Algo muito próximo da pretensão de fazer uma distribuição de renda intelectual. Isto é, de certa forma, uma herança da postura cinemanovista de que o “artista” deve fazer uma intervenção social, transformar a sociedade. Uma necessidade de afirmar sua importância, o seu papel. Eu acho que se o cara pensa que ele é um “cineasta” só porque fez alguns curtas, ganhou uns prêmios, e sai por aí dizendo isto de boca cheia, ele só pode ser um autista ou um iludido mesmo. Um coitado sem a menor percepção do que está fazendo.
Até porque você assistiu aos curtas que foram premiados em Goiás em 2007 (no FICA e em outros festivais). Ora, o que significa ganhar um prêmio em mostras de Goiás? Quais são os critérios de quem seleciona os curtas? E de quem premia? E o mais importante: quais são os critérios de quem seleciona o júri? O que qualifica uma pessoa pra ser júri? Ser presidente de entidade da classe? Ser professor da UFG? Ser filho de alguém influente? Ser “doutor”, “mestre” ou “especialista” em Cinema? Ser músico? Ser escritor preferido do secretário da cultura? Ser artista da Globo? Ser funcionário público? Ser autista? (Nada disso é explicado, nenhum festival é transparente). Conclusão: ao receber um prêmio você pode estar recebendo um atestado de incompetência, sem saber - já que desconhece todos esses critérios e não têm referência alguma, a não ser a de ter sido o melhor entre os filmes que foram selecionados por critérios duvidosos. Logo, temos uma indústria de “cineastas autistas”, que são os festivais.
Eu sou excluído sistematicamente pelos júris de seleção há 3 anos, de todas as mostras, salvo uma única exceção (quando o júri de seleção foi um pessoal de fora…). Martins Muniz, que é um cara que aprecio exatamente por não ser pretensioso, idem. Muitos ficam de fora, sem saber o porquê.
Pra mim, o que pegou mal foi o fato de você colocar todo mundo no mesmo balaio.
Acho o maior barato todo mundo poder produzir hoje em dia. Acho que pra quem tá começando é bom fazer filmes de baixo orçamento. Filmes possíveis, e não filmes ideais. Acho que muita gente pensa que fazer cinema é sentar na cadeirinha estrelada do diretor, ter uma equipe enorme à sua disposição pra mandar, com equipamentos que sequer sabe usar. Tem o fetiche pela grua, tem o fetiche pelos efeitos especiais, tem o fetiche pelo supérfluo. Tem todas estas muletas para se fazer filmes médios (medíocres). Em todos os lugares do mundo, diga-se de passagem.
Ah, esqueci do fetiche pela película e pelo longa-metragem…
Cipriano e Rodrigo,
A crítica, em termos gerais, deve ser analítica, mas também judicativa. E não há como negar — no cinema goiano — predominam o espírito gregário e o gosto por velhas novidades.
Enio, difícil é nascer um Cláudio Assis em Goiás.
Difícil não, Impossível . O contexto é outro. Nossa vocação é para lidar com rebanhos.
Cinema goiano marca presença nos festivais
Beto Leão (*)
Pouco a pouco, Goiás vai conquistando o espaço que lhe cabe no cenário cinematográfico nacional. Sem muita tradição na arte de fazer filmes, os goianos têm aperfeiçoado a cada dia as suas técnicas, idéias e narrativas audiovisuais, o que tem permitido uma maior visibilidade das produções goianas nos festivais nacionais e internacionais.
Em 1999, ano em que o FICA estreou no calendário dos grandes festivais internacionais, o cineasta João Batista de Andrade prefaciou meu livro Bennio - Da Cozinha para a Sala Escura, em que demonstrava seu “espanto com a absoluta ausência de um cinema goiano”. De acordo com o pensamento na época do então coordenador geral do Festival Internacional de Cinema e Video Ambiental, “nos últimos anos, lutando contra todas as regras e, mesmo, contra a má vontade dos que pensam controlar a cultura brasileira, o cinema brasileiro saiu do eixo Rio-São Paulo e mostrou que criatividade existe onde for possível exercitá-la. Nesses anos tenho visto, tanto no mercado quanto nos festivais nacionais e internacionais (com sucesso), filmes de Pernambuco, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Minas, Paraná, Santa Catarina, Espírito Santo e tantos outros estados, onde, aliás, houve a preocupação de se criarem apoios locais. E nada de Goiás.”
Já naquele primeiro ano do FICA, em que participaram apenas cinco produções goianas, um convênio entre a Agepel (na época Fundação Cultural Pedro Ludovico) e a ABD-GO possibilitou a finalização de três curtas-metragens, em 16mm e 35mm - Santo Antônio dos Olhos d’Água, de Kim-Ir-Sen, Bubula, o Cara Vermelha, de Luiz Eduardo Jorge, e O Pescador de Cinema, de Angelo Lima -, dois dos quais participaram da mostra competitiva, sendo que um deles (Bubula, o Cara Vermelha), fez carreira nacional e internacional, ganhando diversos prêmios. Os dois últimos mais A Lenda da Árvore Sagrada, de Eládio Garcia Telles, prêmio de melhor produção goiana no 1º Fica, foram selecionados no 10º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, e na Jornada Internacional de Cinema da Bahia.
Finalmente, o Brasil estava começando a conhecer um pouco do cinema goiano, já que a última aparição em festivais nacionais havia acontecido em 1978, quando José Petrillo saiu com o troféu Candango de melhor curta-metragem em 35mm com seu Cavalhadas de Pirenópolis. Passados esses oito anos desde a primeira edição do FICA, a realidade é bem outra para o audiovisual goiano. No próximo mês de julho, a IV MoVa Caparaó - Mostra de Vídeo Ambiental do Caparaó, festival capixaba que dedica todos os anos uma janela aos filmes premiados no FICA, apresenta em sua mostra competitiva nacional seis produções de Goiás, das treze produções selecionadas. São eles: Coque do Buriti, de Gel Messias; Flower Power, de Sérgio Valério, Lamento, de Kim-Ir-Sen Pires Leal; É da Raiz, de Ângelo Lima, e Minha Árvore, de Andréia Miklos Mocó.
Em maio último, o 4º Festival de Cinema de Maringá apresentou em sua mostra competitiva seis produções goianas: 14 Bis, de Guilherme Gardinni; A Resistência do Vinil, de Eduardo Castro; Coque do Buriti, de Gel Messias; É da Raiz, de Angelo Lima, Goiânia - Sinfonia da Metropóle, de Rodolfo Carvalhaes; O Filme que Nunca Existiu, de Sérgio Valério. Rapsódia do Absurdo, de Cláudia Nunes, participou do Cine PE 2007, em abril, e do 14º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá, em maio.
As mostras e festivais, independentemente de se ganhar prêmios ou não, são muito importantes para qualquer cinematografia porque permite o contato do público com diferentes estéticas e linguagens. Na medida em que o cinema goiano está inserido nesse contexto, ele só tem a crescer, uma vez que recebe críticas de outros profissionais do meio e os realizadores podem comparar o que estão fazendo, tanto em termos de estruturação de roteiros quanto na própria estrutura narrativa, com outros filmes/vídeos do resto do país.
Com o advento do Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental, o Estado deu o pontapé inicial para tornar-se um pólo de exibição e de produção do cinema goiano. Em suas nove edições, o FICA vem estimulando os cineastas goianos a produzirem mais e melhor a cada ano, ainda que as produções locais, em sua maioria, careçam ainda de aperfeiçoamento técnico e artístico, principalmente no gênero ficção, mas também no documentário. O FICA tem demonstrado que o cinema perdeu a ingenuidade diante do grau de perigo que as agressões descontroladas do homem têm causado ao meio ambiente, principalmente no século passado, cujas conseqüências estamos vendo refletidas no atual milênio. Uma prova disso é que o tema das mudanças climáticas é o mote dominante na atual edição do festival, tanto nos filmes quanto no Fórum sobre o Clima, que trará a lume os impactos na biodiversidade e no meio ambiente do continente sul-americano, com particular ênfase no território brasileiro.
Nesse contexto, para que as produções goianas possam competir em pé de igualdade com os filmes ambientais nacionais e estrangeiros é necessário que os realizadores tenham pleno domínio das técnicas narrativas cinematográficas de uma maneira geral. A fim de fazerem filmes ambientais competitivos, os realizadores goianos têm de exercitar também a feitura de filmes ficcionais que dialoguem de forma intelegível com o público.
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(*) Beto Leão é jornalista, pesquisador de cinema e documentarista. Atual presidente da ABD-GO, escreveu os livros Bennio – Da Cozinha para a Sala Escura, O Cinema Ambiental no Brasil, Cinema de A a Z – Dicionário do Audiovisual em Goiás, Goiás no Século do Cinema (em parceria com Eduardo Benfica) e é um dos autores da Enciclopédia do Cinema Brasileiro.