O farsante das águas ilusórias

por Edival Lourenço
Foi em plena festa da padroeira que ele apareceu. Abriu a lateral da Besta e começou a instalar sua tranqueira: a mesa, que foi desdobrando com habilidades de mágico, uma corneta no suporte já instalado no teto do veículo, um microfone sem fio na lapela e resmungou algumas palavras de um idioma supostamente importado, testando o sistema de som.
Deixou como fundo uma música de número de magia, pegou uma caixa com furos de onde retirou meia dúzia cobras hipnotizadas, que ocuparam uma parte da mesa. Na outra parte colocou uma pirâmide de vidros transparentes com selo azul. Enrolou uma das cobras no pescoço e deu início aos trabalhos, num sotaque indecifrável:
Vamos chegar, minha gente, que hoje a cobra vai dançar balé na corda bamba, lambada sobre a mesa, catira no tablado e funck na boquinha da garrafa. Hoje a cobra vai cruzar as pernas e fumar a piteira de Marilyn Monroe, colocar chapéu, tomar um trago da branquinha de Lula e fumar o charuto de Getúlio Vargas. Vamos chegar, minha gente, que vocês verão o que nunca pensaram ver. Estamos respirando os primeiros ares dos novos tempos e coisas impossíveis estão acontecendo como que por encanto.
Foi questão de minutos para que uma massa de gente curiosa se adensasse ao seu redor. Aí, ele deu uma guinada no discurso: – O que vou apresentar aqui hoje, aos senhores e às senhoras, não se encontra nos livros, nas revistas, nos jornais. A televisão ainda não teve acesso, nem o rádio, nem o cinema, nem a internet. Esta cidade, por um capricho de Deus, foi escolhida para conhecer em primeira mão os espantosos benefícios de nosso produto. Como vocês sabem, a água que nós bebemos é água reciclada e impura. A água que a senhora bebeu hoje – disse apontando para uma mulher vistosa – já passou pelos sanitários da rodoviária, pelo estômago dá égua do carroceiro, pelo lixão da cidade, bela bexiga do defunto que a senhora viu ser enterrado. Fez uma pausa para que as pessoas exercitassem suas repugnâncias.
Mas os cientistas da NASA acabam de descobrir que o bloco azul de gelo do pólo ártico, situado a cinco mil metros de profundidade, detém a água original. Do tempo dos dinossauros. Ela ficou de molho se depurando por milhões e milhões de anos. Por isso adquiriu propriedades medicinais curativas, preventivas e estéticas que nenhum outro remédio do mundo pode ter. Mulher de madre seca pega cria, mulher feia vira top model, homem frouxo vira garanhão. Aqui neste vidrinho, senhoras e senhores, eu tenho a água puríssima do pólo, primordial, cem por cento desidratada e embalada à pressão ambiente. Para se obter a água milagrosa é só reidratar esta porção com vinte litros de água fervida e…
Antes que concluísse sua explanação fantástica, a multidão já disputava os vidros de vácuo a socos e pontapés, ao custo de dez reais cada. A belíssima rainha da festa lhe pergunta manhosa, “será que pra mim essa coisa vale?” E, malicioso, ele responde, “espera aí, rainha, pra você tenho coisa muito melhor!”
Em pouco mais de uma hora ele vendeu todo seu carregamento de água desidratada. Ao meio da tarde partiu com as cobras dormentes no caixote, as burras cheias de grana e a rainha da quermesse a tiracolo, com quem foi visto num piquenique de luxúria espetacular, ao pôr-do-sol, numa praia do Rio Cristalino.
Uma resposta para “ O farsante das águas ilusórias ”
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Edival, meu amigo, esse texto é bom que só outro do mesmo naipe; espirituoso, contemporâneo (de ontem e de hoje), divertido. Cara, você até parece escritor, e o é, de verdade! Escreva mais, que tá bom demais, e o mais é o meu abraço.