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Aprendendo com as encrencas de Britney

por Flávio Paranhos

O texto abaixo é uma tradução minha de um artigo que saiu no NYT de domingo passado. Embora fuja um pouco da área de interesse da Bula, achei o tema interessante. Mas, pra não dizer que não falei de cinema, o texto faz lembrar “De repente, no último verão” (1959), com Elizabeth Taylor, Montogomery Clift e Katharine Hepburn, baseado na peça homônima de Tennessee Williams. Aqueles que, após lerem o artigo, não souberem por que me lembrou o filme, que vão assistí-lo de novo (estou admitindo que todos os milhares de leitores da Bula, sem exceção, já viram esse filme pelo menos uma vez, pelamordedeus, né!).

PS: Se notarem alguma bobeada na tradução, agradeço reparos.


Mia Fontaine

(artigo publicado no The New York Times de domingo, 10/02/2008)

A hospitalização involuntária de Britney Spears na semana passada me traz memórias. Dez anos atrás, quando eu tinha quinze anos de idade, eu era uma garota que havia abandonado a escola e uma viciada em heroína, vivendo na traseira da van de um traficante. Minha mãe notou os primeiros sinais quando eu tinha 14: perda rápida de peso, auto-mutilação, voltando pra casa “alta”, tomando pouco banho. O terapeuta que ela me arranjou, assim como meu monitor na escola, acreditavam que se tratava apenas de típico comportamento adolescente. Na primeira vez que eu fugi, porém, minha mãe tirou suas próprias conclusões, e conseguiu um mandado pra me hospitalizar à força (código 5150 pelas leis da Califórnia, para hospitalização involuntária por 72h, o mesmo pelo qual Britney Spears foi hospitalizada na quarta-feira).

Eu gostaria de ter encarado minha primeira internação forçada como o presente que realmente era.

Para Spears, quando as 72h de sua internação acabaram, uma de três coisas poderiam ter acontecido: ela poderia ter simplesmente saído, poderia ter tomado a iniciativa de manter-se internada, ou, ainda, os médicos responsáveis poderiam alegar o código 5250, para mantê-la por mais tempo, após determinar que ela está “gravemente comprometida”.

Curiosamente, os paparazzi – freqüentemente acusados de contribuir para os problemas de Spears – podem ter ajudado com a solução desta vez: eles forneceram ampla documentação para embasar a decisão dos médicos para lançar mão do código 5250, que pode prolongar o período de internação por até 14 dias. Para pacientes cuja movimentação não é registrada a cada momento, entretanto, um prolongamento é extremamente difícil de se conseguir. Ao contrário do código 5150, que pode ser emitido por qualquer médico qualificado, a internação prolongada precisa ser decidida por um representante designado pela Justiça.

A hospitalização involuntária se torna ainda mais complicada quando se está lidando com distúrbio bipolar, cuja natureza é cíclica. Ser louco não te faz ser estúpido. Desde que você não tente suicídio, homicídio ou qualquer ação documentável (legalmente, é preciso que haja “específica e articulável” evidência de sua inabilidade para funcionar normalmente para que a internação forçada continue), você está livre para sair. O que, 14 dias após minha internação, eu fiz, a despeito dos protestos de minha mãe.

Como uma menor, eu teria de ter autorização paterna pra fazer uma tatuagem, mas, quando o assunto era minha saúde mental, a lei me dava , a mim, uma adolescente drogada, completo controle. Somente quando eu fui parar numa cadeia em Utah, por drogas, eu me senti finalmente estimulada a receber tratamento. Por acaso, o Estado em que fui presa era um dos únicos que permitia aos pais colocar seus filhos em tratamento, mesmo contra sua vontade.

Essa realidade vai contra a concepção popular, propagandeada pelos filmes de Holywwod, sobre internação involuntária (pessoas sadias mantidas presas em hospitais psiquiátricos, em filmes de horror). Estranhamente, foi um ator, Ronald Reagan, quem fez muito para restringir seu uso. Como governador da Califórnia em 1967, o sr. Reagan assinou uma lei que estabeleceu um precedente nacional, de exigir audiências judiciais para internações involuntárias (o código 5250), e a proibição de medicação forçadas, entre outras coisas.

De mãos atadas pelas novas leis, pais de jovens com doenças mentais ou viciados em drogas, pouco podem fazer, a não ser assistir impotentes. O que é pior, comportamentos estranhos antes atribuídos a adolescentes – perda repentina de peso, temperamentalismos, exibicionismos – são expostos nas capas de revistas como Us Weekly e Star. (É um paradoxo o fato de que Britney Spears seja agora vítima da cultura que ela ajudou a criar).

A situação de Spears mostra os perigos de se embaçar a linha entre comportamento social celebrado e comportamento patológico. E, embora seus amigos e parentes (além de uma multidão de fãs) sejam capazes de diferenciar os dois comportamentos, e reconhecer que ela precisa de ajuda, nosso sistema legal não pode ou não se importa de tratar alguém até que ele/ela ponha em perigo a si próprio ou aos outros, às vezes irreversivelmente.

Claro, as leis que um dia nos permitiram forçar adultos a se tratar podem ter sido abusadas: eletrochoque-terapia extrema, lobotomias, maridos canalhas internando suas esposas, filhas promíscuas que envergonhavam seus pais sendo presas. Mas ao tentar eliminar essas distorções, deixamos de fora casos como o de Britney Spears e outros bem menos famosos, do abrigo onde eles poderiam ter sido ajudados.

Eles precisam ser trazidos de volta.

Mia Fontaine (co-autora do livro de memórias: “Comeback: A Mother and Daughter’s Journey Through Hell and Back”)



2 respostas para “ Aprendendo com as encrencas de Britney ”

  1. Ana Fevereiro 12th, 2008 19:13

    Note bem o que ela disse no final do ano, parece que não adiantou:

    “Há dois anos não comemorava meu aniversáro. Tudo que eu fiz até agora foi muito bom, foi além das minhas expectativas e provavelmente levei essa minha nova descoberta de liberdade longe demais. De qualquer forma, agradeço à Deus pela nova linha de lingerie da Victoria’s Secret. Estou ansiosa para o novo ano, novas músicas e nova Britney. Eu estou apenas começando… Boas festas para todos”.

  2. Ana Fevereiro 12th, 2008 20:36

    Palavras, palavras, palavras e nada mais. Ela é uma louca.

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