Fio da meada

por Enio Vieira
Os filmes recentes que abordam episódios e experiências da ditadura militar no Brasil têm muita dificuldade em capturar os movimentos múltiplos daquele período. As narrativas cinematográficas se baseiam em fatos isolados e histórias pessoais de maneira linear e sem contradições. “Quase dois irmãos” (2004), de Lúcia Murat, é uma tentativa bem-vinda e arriscada de encontrar os diversos fios históricos que ligam o regime militar aos dias de hoje.
Murat organiza o filme em torno de três épocas: pré-golpe de 1964, anos 1970 e atualidade. As situações narradas estão estruturadas basicamente no encontro da elite letrada com o povo. Essa aproximação – que é a fratura não resolvida da sociedade brasileira – foi uma das principais utopias do pensamento de esquerda no século XX. Um bom achado de “Quase dois irmãos” é mostrar como esse encontro vai se tornando inviável ao longo do tempo.
No filme, o primeiro encontro exibe a convivência dos homens cultos e boêmios com músicos pobres. É a fase anterior ao golpe militar, quando o país se imaginou em desenvolvimento, democrático e integrador das classes sociais. Neste ponto, aparecem ainda crianças os dois personagens centrais: Miguel (filho do intelectual branco de classe média) e Jorginho (o filho do sambista negro). A partir daí, ocorrerá a sucessão de (des)encontros entre eles.
O episódio central do filme é a ida de Miguel (militante de esquerda) e de Jorginho (assaltante comum) para presídio da Ilha Grande, nos anos 1970. Os presos políticos tentam civilizar as relações diárias pela proibição de drogas, espancamentos e estupros entre os detentos. De quebra, começa a aproximação deles com os presidiários comuns que aprendem e trocam experiências. Nasce o lema “Paz, justiça e liberdade” do Comando Vermelho, a conhecida organização do tráfico de drogas.
Nos últimos anos, aliás, virou moda dizer que os presos comuns da Ilha Grande, na verdade, aprenderam as táticas de guerrilha urbana de esquerda e usaram-nas no tráfico de drogas. Talvez essa interpretação tenha ganhado tanta força que será muito difícil desfazê-la. No entanto, Lúcia Murat evita essa visão linear e simplista do que aconteceu na época. Ainda dentro da prisão, a aproximação elite/povo se desfaz e já sinaliza o estágio de ruptura definitiva.
O terceiro encontro é uma conversa de Miguel e Jorginho – este está preso por comandar o tráfico de drogas no Rio. Miguel teve a filha violentada num morro carioca e discute com o “quase irmão” como resolver o caso. Sua filha pertence à geração de adolescentes de classe média que se aproxima e namora os rapazes traficantes. O filme retrata situações contemporâneas de violência próximas de obras como “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund.
Com o auxílio de “Cidade de Deus”, que justamente se passa nos anos 1960 e 1970, é possível juntar as duas pontas e montar o fio da meada. Poucos se dão conta de que Cabeleira, Zé Pequeno e Buscapé vivem num horrendo conjunto habitacional criado pela ditadura. Foi durante o regime militar que se deu a definitiva cisão entre elite e povo no Brasil. Vistos lado-a-lado, “Quase dois irmãos” e “Cidade de Deus” ajudam a montar o quebra-cabeça do passado e do presente.
3 respostas para “ Fio da meada ”
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caro enio, vi quase dois irmãos, e me pareceu um roteiro frágil. Embora alguns apontamentos seus, sejam verdadeiros.
Paula, uma das vitalidades de “Quase dois irmãos” está justamente no roteiro que entrelaça os três encontros históricos. A maioria dos filmes brasileiros de hoje, ao contrário, tem um padrão linear de narrativa, bem ao estilo Syd Field de Hollywood.
Na minha avaliação, a melhor realização entre os filmes sobre a ditadura militar é “Ação entre amigos”, de Beto Brant, que fala da impossibilidade de esquecer, o trauma (que é um ponto-chave de uma narrativa de eventos como a ditadura).
Enio, tem razão. Ação entre Amigos é um filmaço. Obrigatorio para qualquer estudante do tema.