A invasão da poesia

por Eberth Vêncio
O ser humano, criatura para lá de estranha, tem vários defeitos. Um dos piores deles é a intolerância, tanto em nível pessoal (relações interpessoais) quanto coletivo (o sujeito lidando com grupos, corporações, comunidades, um país inteiro). Por causa da intolerância, amores eternos minguam, amizades se corrompem, famílias digladiam, irmão desconhece irmão, preconceitos sobrevivem, guerras e dominações repetem-se na História da Humanidade, mesmo antes dela começar a ser escrita, dentro das cavernas, onde as diferenças eram resolvidas com a força insalubre da unha e do cajado.
Foi pensando assim que, ainda invadido por um sentimentalismo raquítico e efêmero, bem propício ao mês de dezembro, eu me arrisquei na lira, rabiscando versos a respeito do tema. Penso tratar-se de um assunto pertinente nesta virada de 2007 para 2008, quando todos (quase todos tolos) estão muito eufóricos, sensíveis e gastando dinheiro à beça. Tá certo: a grana tem que correr no mercado, alimentá-lo como a um bichinho (monstrinho, diga-se). Demanda que o metal circule de mão em mão. Contudo, o consumismo é tão agressivo que, às vezes, nos deixa constrangidos, pobres diabos disputando centímetros em shoppings, galerias e lojinhas, assim como urubus farejando carniça. Sim, o ofício pode até parecer nobre (presentear quem se gosta), mas, nós também exageramos na dose.
O poema foi concebido em meio aos festejos, comilanças e pileques do derradeiro natal. Batizei-o “Intolerância”, e segue abaixo, na íntegra, e totalmente sem cortes!! (nenhum “marketing” será castigado…). Eu suplico aos leitores de crônicas que me perdoem pela recaída. Acontece que, nos primórdios, eu “penetrei” na literatura através da “rima” (considerem o trocadilho…). Uma volta às origens. Oxalá, fique no agrado dos leitores! Aliás, não se esqueçam: sejam tolerantes comigo. Ou não.
Intolerância
por intolerância
amores infinitos morrem na véspera
debruçados em rancor e mágoa
(amantes desentendidos caçam culpados)
por intolerância
apontamos os defeitos uns dos outros
como se não fôssemos nós mesmos o alvo
do ridículo e das piores incertezas
por intolerância
invocam-se deuses, dogmas e fuzis
para a benção das carnificinas
no inferno das guerras santas
por intolerância
flores despetaladas enfeitam castelos sem cor
territórios são invadidos
povos, subjugados
tudo sob a batuta nervosa de déspotas à beira da loucura
por intolerância
esmagam-se com músculos e palavras
as nuanças de raça, credo e libido
uma faxina sórdida a varrer o que lhe parece diferente
por intolerância
detonam-se gatilhos nos miolos da noite
nas oficinas solitárias dos suicidas
onde se fabrica o fim da dor e da dúvida
por intolerância
endurecemos
subsistimos
aclamamos toda a futilidade
homens e mulheres absolutamente azeitados à máquina cotidiana
a qual chamamos, assoberbados e caluniosos:
vida
4 respostas para “ A invasão da poesia ”
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Gostei muito da sua reflexão. O texto inteiro é um poema.
Belo poema.
Também gostei de sua crônica/poema!
Intolerância é um poema feito sob medida para as miserabilidades humanas, eberth; vai daí que é um poema permanente. gostei.