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Nós e os políticos: o exemplo que vem de cima


por Jose Carlos Guimarães

Dia desses chegava eu à Avenida Paranaíba descendo a Goiás, a pé. Duas mulheres vinham em sentido contrário, atravessando pela faixa de pedestre, uma senhora e uma moça, quando o sinal abriu. Nenhum dos motoristas esperou que concluíssem a travessia e iniciaram a aceleração. Imediatamente elas correram do ponto em que estavam – mais ou menos o meio da zebra – para não serem atropeladas. O risco, obviamente, era plausível, pois os carros vieram em sua direção, como que as expulsando do “seu” caminho. Detalhe é que elas mal concluíram a passagem e já sorriam entre si, comentando o susto.

Comecemos nosso comentário por este sorriso, de repente carregado de significados. Simpático, foi o sorriso tolerante de quem não conhece os próprios direitos e jamais reclamaria por eles. A pressa dos condutores – possivelmente aprovados pelo Detran - justificaria uma reação oposta, francamente indignada, só que essa carranca contrasta com nossa índole de “boa gente”. Não se esperaria no Brasil, normalmente, outra atitude. É quando, então, percebemos também que tal índole tem seu lado prejudicial, ruim, transigente com a infração, o erro e a ilegalidade. Ora, nada disso convêm àquilo que conhecemos como espaço público – diga-se de passagem, a abstração de que estamos falando.

Imagino que o leitor deste artigo testemunha diariamente situações como a que descrevi. De tão comum, nem repara mais. O trânsito, aqui, é só um estudo de caso entre milhares. Quem, ao volante, não espera o pedestre atravessar a pista, pára em fila dupla, dirige embriagado etc, etc, é um sujeito chamado “cidadão”. Ora, cidadão é o tipo que o tempo todo passa por cima do direito alheio e descumpre regras insistentemente. O sujeito que, de certo modo, só concebe direitos e nenhum dever.

Curiosamente, é o mesmo que fala mal da classe política, uma “imprestável”. O tom, como não bastasse, é de assepsia. Aqui chegamos ao assunto principal dessa exposição: como o cidadão comum enxerga os políticos e como age ele próprio. Se se comparar, chegaremos à conclusão de que a diferença entre este e aqueles não é assim tão homérica, longe disso. O cidadão não é, de jeito nenhum, esse paladino moral que tanto reclama de seus representantes. Porém, tanto reclama que não deseja nem mesmo ser confundido com eles: existe o cidadão e os políticos, um de cada lado. Daí a expressão que todos já ouvimos: “virou político, não presta!”. Como se não enxergássemos à nossa volta…

“Político” não é formação, como é o caso de médico, jornalista, engenheiro, pastor, sindicalista, advogado, professor etc. Ou seja, pessoas com as quais cruzamos todos os dias, em casa, na rua, no trabalho ou em algum serviço público. Porque, na realidade, é isto: o político sempre tem uma profissão como a nossa e sai do nosso meio, da sociedade e suas instituições. É, portanto, um de nós, quer queiramos ou não. Não adianta pensar que são eles de lá e nós de cá, como duas coisas inestanques e diferentes. Ou seja, a sociedade formada só de homens responsáveis e exemplares, e a política só de mau-caráteres. Fosse assim, aquelas senhoras lá do primeiro parágrafo teriam resguardado seu direito de atravessar a zebra sem nenhuma pressa, simplesmente porque concluiríamos que de cá só há cidadãos, sinônimo de respeito às leis – ou não? É claro que não!

Este é o exemplo que vem de cima. De cima, sim, e não nos enganemos quanto a isto. Embora a sociedade ou o cidadão pretenda inverter a ordem das coisas, é ele quem tem a obrigação de dar o exemplo. Em regimes políticos democráticos (teoricamente é o nosso caso), nós, e não os políticos, é que somos os superiores hierárquicos, haja vista que são eleitos por nós, sob nosso consentimento e como nossos representantes. Mesmo o presidente da República é um subordinado. Se escolhemos desinteressadamente – isto é, se escolhemos mal - é outra história. Logo, o dever de dar o exemplo, inibindo nossos representantes de cometer qualquer deslize, é nosso. Até porque, não é apenas cômodo esperar que dêem o exemplo, embora, de acordo com as regras, estejam a nosso serviço, portanto por baixo. É também conveniente esperar o façam, porque se um de nós decide virar político, se dá o direito de fazer como “todos” lá fazem: passar a mão no erário público. Quantas vezes ouvi esse tipo de afirmação dos pretensos moralistas: “se eu virasse político eu também ia roubar! Acha que sou besta?” Pois então: é a sociedade. E não se dá o direito de dizer nada, absolutamente.



Uma resposta para “ Nós e os políticos: o exemplo que vem de cima ”

  1. Paulo Sérgio Fevereiro 8th, 2008 13:50

    Politica é isso aí, caro José Carlos.

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