Dick Flocaucô era o carnaval em pessoa

Hélverton Baiano
Dick Flocaucô era o carnaval em pessoa, pois até seu nome era meio carnavalizado. Mas dizer em pessoa é muito pouco para o que Dick significava e muito menos ainda para o que o carnaval significava para ele. Caía na folia, mas caía mesmo, não apenas nos cinco dias da festa de Momo, porque o carnaval dele era de, no mínimo, 10 dias, e ele ainda trabalhava para fazê-lo de uma quinzena. Carnaval aqui no Brasil é realmente o tempo do desbunde, da entrega, da furupa, do auê, do fuzuê e do furdunço. Vocês podem não acreditar, mas para Flocaucô era muito mais.
Ele se entregava à folia, sem hora, sem preocupação, sem critério, sem nada, e se envolvia bebendo e comendo, gritando, vadiando, amando, se apaixonando. Encontrava pares que se quedavam ao seu encanto, mulheres que se entregavam e se apaixonavam e parceiros que dividiam a festa com ele. Dividiam mesmo, porque ele sempre continuava, enquanto muitos iam ficando para trás, engolidos pelo sono, pelo cansaço, pelas mazelas, alegrias e dores.
Não foi nem uma nem duas vezes que ele, no calor da esbórnia, gritava e rugia que queria morrer em pleno carnaval, comemorando a alegria maior de sua vida. “Quero me acabar na folia, quero morrer na farra, pulando e desfrutando essa festa”, dizia, ou melhor, bradava. De certo que muitos dos que o conheciam e brincavam o carnaval com ele matutavam essa cisma, de uma hora para outra vê-lo ali estendido e bem ido no meio da folia. Mas dizia também que a festa não deveria, mas não deveria mesmo, ser interrompida por causa disso. Ao contrário, queria mais festa ainda, com o defunto, pelo menos durante um dia inteiro, sendo jogado de um lado para outro e fantasiado da maneira mais adequada.
Eu mesmo nunca vi ninguém mais alegre e feliz numa festa de Rei Momo. Dick era uma coisa de louco. Saía de casa doze dias antes da quarta-feira de cinzas e fazia da rua, dos botecos, dos bailes a sua moradia durante o carnaval. Que eu saiba, ninguém o via dormindo um pinguinho sequer, era mulher cachaça e folia o tempo todo, com pequenos intervalos para forrar o estômago com uma comida forte e sustanciosa, um sarapatel, uma feijoada, um cuscuz, uma rabada.
De forma que em todo carnaval eu fico sempre apreensivo com a possibilidade de Dick Flocaucô bater o pacau em plena folia. Por outro lado, no entanto, eu serei o primeiro a continuar a folia com o defunto nas costas, como ele deseja e quer. Neste carnaval, para seus amigos, e me incluo entre eles, e para o próprio Dick está sendo nada diferente. A mesma folia e a mesma alegria. Hoje já é terça-feira de carnaval e ele ainda não bateu a caçuleta. Fico aqui matutando, se ele for para a terra de pés juntos hoje nós teremos de continuar a farra atravessando a quarta-feira de Cinzas, com ele nas costas, com muita alegria e dando vivas ao finado.
2 respostas para “ Dick Flocaucô era o carnaval em pessoa ”
Deixe uma resposta.
Muito bom seu texo.
Muito bom de ler esse texto. Parabéns pela forma como escreve.