Arquivo de Fevereiro de 2008
Os seis minutos mais belos da historia do cinema*

Por Giorgio Agamben
Sancho Pança entra num cinema de uma cidade do interior. Está procurando Dom Quixote e o encontra sentado isolado, fixando o telão. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de “galinheiro” — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Após algumas tentativas de chegar a D. Quixote, Sancho senta-se de má vontade na platéia, ao lado de uma menina (Dulcinéia?), que lhe oferece um lambe-lambe. A projeção começou, é um filme de época; sobre o telão correm cavaleiros armados, e num certo momento aparece uma mulher em perigo. De repente, Dom Quixote se ergue de pé, desembainha a espada, se precipita contra o telão e os seus golpes começam a cortar o tecido. No telão aparecem ainda a mulher e os cavaleiros, mas o corte negro aberto pela espada de Dom Quixote se alarga cada vez mais, devorando implacavelmente as imagens. No fim, quase nada sobra do telão, vendo-se apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O público indignado abandona a sala, mas no “galinheiro” as crianças não param de encorajar fanaticamente Dom Quixote. Só a menina da platéia o fixa com reprovação. Ler mais
Comments OffO lado A do cinema goiano

Tacilda Aquino
Carlos Willian, grande amigo, confesso que fiquei surpresa com seu artigo sobre a produção cinematográfica goiana no Jornal Opção. E juro que não entendi o motivo de sua ira. Acho que você foi duro demais, principalmente para um poeta que sabe que fazer cultura em Goiás, independentemente do tipo de manifestação artística, sempre foi um desafio.
Preciso discordar de sua afirmação: “Todavia, o mais trágico da conclusão é que não apenas esses quatro curtas são ruins. Em toda a história do cinema goiano, não se tem idéia de filme algum que tenha valido a pena ter sido feito!”. Preciso discordar porque escrevendo sobre cinema durante tantos anos no Jornal O Popular (de 1986 a 2006) acompanhei de perto a produção goiana e tive a felicidade de assistir muitos bons filmes produzidos não somente neste período, como nos anos do chamado cinema novo. O Azarento, Um Homem de Sorte, dirigidos por João Bennio, por exemplo. E o que dizer do grande José Petrillo que, como produtor, realizou grandes filmes como O Leão do Norte, de Carlos Del Pino, rodado em Pirenópolis, e que em 1974 foi responsável pela produção de A Lenda de Ubirajara, ganhador do prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Petrillo fez praticamente tudo à frente e atrás das câmeras. Dirigiu centenas de comerciais, produziu um sem número de documentários e conquistou várias premiações. O mais famoso é Cavalhadas de Pirenópolis, curta-metragem em 35 mm premiado em 1978 com o Troféu Candango no 11º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília. Ler mais
4 comentários »O CINEMA GOIANO E A SAGA DOS UMBIGOS ESPELHADOS

CENA 1 — ROBNEY BRUNO, ENTRA CORRENDO (MEIO DESAJUSTADO), GRANOFONE NA MÃO, IMPROVISA UM DISCURSO E CHORA
Caros amigos agcvistas, listeiros e simpatizantes.
Quando eu ouço um comentário como esses, do nobre escritor Carlos William Leite, sobre o cinema goiano, um turbilhão de sentimentos ambíguos (lê-se revolta e vergonha) me vem ao coração. Ambíguos porque todos nós sabemos que, apesar da luta que temos travado nesses anos todos, ele em parte, não deixa de ter razão. E não adianta aqui sermos protecionistas e querer justificar a qualidade dos nossos trabalhos pelas condições a que somos submetidos – corte em verbas e tempo escasso (lê-se Lei Municipal e Festcine - Isso sem falar na famigerada Lei Goyazes e Lei Rouanet, que há muito tempo não se tem notícia de algum projeto de cinema produzido por elas). Digo isso, porque o que chega as pessoas que não são da área de cinema é apenas o resultado de um trabalho, ou seja o filme pronto, e nunca a trajetória e as dificuldades que cada um de nós teve pra produzir. O que não deixa de ser natural, pois quando uma pessoa assiste a um filme ele não tem obrigação nenhuma e nem quer saber das condições em que eles foram feitos. Ler mais
15 comentários »Aprendendo com as encrencas de Britney

por Flávio Paranhos
O texto abaixo é uma tradução minha de um artigo que saiu no NYT de domingo passado. Embora fuja um pouco da área de interesse da Bula, achei o tema interessante. Mas, pra não dizer que não falei de cinema, o texto faz lembrar “De repente, no último verão” (1959), com Elizabeth Taylor, Montogomery Clift e Katharine Hepburn, baseado na peça homônima de Tennessee Williams. Aqueles que, após lerem o artigo, não souberem por que me lembrou o filme, que vão assistí-lo de novo (estou admitindo que todos os milhares de leitores da Bula, sem exceção, já viram esse filme pelo menos uma vez, pelamordedeus, né!). Ler mais
2 comentários »O farsante das águas ilusórias

por Edival Lourenço
Foi em plena festa da padroeira que ele apareceu. Abriu a lateral da Besta e começou a instalar sua tranqueira: a mesa, que foi desdobrando com habilidades de mágico, uma corneta no suporte já instalado no teto do veículo, um microfone sem fio na lapela e resmungou algumas palavras de um idioma supostamente importado, testando o sistema de som.
Deixou como fundo uma música de número de magia, pegou uma caixa com furos de onde retirou meia dúzia cobras hipnotizadas, que ocuparam uma parte da mesa. Na outra parte colocou uma pirâmide de vidros transparentes com selo azul. Enrolou uma das cobras no pescoço e deu início aos trabalhos, num sotaque indecifrável: Ler mais
1 comentário »Fio da meada

por Enio Vieira
Os filmes recentes que abordam episódios e experiências da ditadura militar no Brasil têm muita dificuldade em capturar os movimentos múltiplos daquele período. As narrativas cinematográficas se baseiam em fatos isolados e histórias pessoais de maneira linear e sem contradições. “Quase dois irmãos” (2004), de Lúcia Murat, é uma tentativa bem-vinda e arriscada de encontrar os diversos fios históricos que ligam o regime militar aos dias de hoje.
Murat organiza o filme em torno de três épocas: pré-golpe de 1964, anos 1970 e atualidade. As situações narradas estão estruturadas basicamente no encontro da elite letrada com o povo. Essa aproximação – que é a fratura não resolvida da sociedade brasileira – foi uma das principais utopias do pensamento de esquerda no século XX. Um bom achado de “Quase dois irmãos” é mostrar como esse encontro vai se tornando inviável ao longo do tempo. Ler mais
3 comentários »Assim comia Zaratustra

Woody Allen
Texto publicado na New Yorker / Piauí
“Nenhum filósofo chegou perto de solucionar o problema da culpa e do peso até que Descartes separou mente e corpo, de tal modo que o corpo podia se empanturrar à vontade, enquanto a mente pensava: “E daí? Não sou eu.” A grande questão da filosofia perdura: se a vida não tem sentido, o que se pode fazer com a sopa de letrinhas? Foi Leibniz quem primeiro disse que a gordura consistia em mônadas. Leibniz fazia dieta e exercícios, mas nunca chegou realmente a se livrar de suas mônadas - ou, pelo menos, não daquelas que aderiram às suas coxas. Spinoza, por outro lado, jantava frugalmente porque acreditava que Deus existia em tudo, e é intimidador abocanhar um pãozinho judaico se a gente acha que está lambuzando de mostarda a Causa Primeira de todas as coisas.” Ler mais
3 comentários »A invasão da poesia

por Eberth Vêncio
O ser humano, criatura para lá de estranha, tem vários defeitos. Um dos piores deles é a intolerância, tanto em nível pessoal (relações interpessoais) quanto coletivo (o sujeito lidando com grupos, corporações, comunidades, um país inteiro). Por causa da intolerância, amores eternos minguam, amizades se corrompem, famílias digladiam, irmão desconhece irmão, preconceitos sobrevivem, guerras e dominações repetem-se na História da Humanidade, mesmo antes dela começar a ser escrita, dentro das cavernas, onde as diferenças eram resolvidas com a força insalubre da unha e do cajado. Ler mais
4 comentários »A dor fundamental

Carlos Willian Leite
não há caminho e
nada valho
meu rir lascivo
é uma coreografia de enganos
eu cresci como crescem
os espantalhos
eu cresci sem planos
Anywhere out of the world!

por Lauro Marques
― É melhor você aparar os pêlos do nariz antes de falar com o capitão ― disse George.
Marcelo não via nenhuma razão naquilo. Que diabos poderia isso afinal afetar em serem aceitos?
George mostrou o recorte de jornal: Navio de bandeira holandesa contrata tripulação por período determinado. Destino: Porto de Roterdã, com paradas em África e Europa. Requisitos: ser maior de idade e gozar de boa saúde física além de disposição para trabalhar no mar. Diversos postos e renumeração equivalente. Procurar o capitão do navio no porto da cidade.
Por via das dúvidas, Marcelo apanhou a tesourinha que lhe ofereceu George e enquanto mirava-se no espelho do banheiro ouvia George na cozinha preparando um lanche. George morava sozinho e tentava impressionar Marcelo com sua independência. A mãe cozinhava e mandava a comida para ele em tupperwares que eram consumidos semanalmente. Também semanalmente as roupas voltavam limpas e passadas a ferro. Marcelo nunca tinha preparado nem o café. George cortou uma salsicha em dois e jogou junto com a manteiga na frigideira fazendo subir um cheiro agradável. Ler mais
11 comentários »No avião, em queda livre

por Flávio Paranhos
Ai, meu Deus, o que é pra fazer mesmo?
O que está dizendo? Não há coisa alguma a fazer. Encomende sua alma a Deus, meu filho. Reze!
Não, não. Aquelas instruções… Eu nunca presto atenção.
Ave Maria, cheia de graça…
Como é mesmo? “As máscaras descerão automaticamente…”
O senhor é convosco…
Nunca prestei muita atenção. Sempre achei que sabia tudo de cor.
Bendita sois vós, entre as mulheres…
No começo, em minhas primeiras viagens, fingia que já sabia, ficava lendo jornal com aquele ar blasé, ou seria glacê?
Bendito é o fruto de vosso ventre…
Passei a achar que sabia tudo mesmo.
Jesus.
Jesus! Ai Jesus, o que foi?
Santa Maria, Mãe de Deus…
Como era mesmo? “Máscaras cairão automaticamente…” Crianças primeiro… “Passageiros acompanhados de crianças”… Não, não. Isso era pra embarcar…
Rogai por nós…
Peraí. Eu me lembro. Primeiro as máscaras na gente, depois nas crianças… Cadê as máscaras? Ler mais
Nós e os políticos: o exemplo que vem de cima

por Jose Carlos Guimarães
Dia desses chegava eu à Avenida Paranaíba descendo a Goiás, a pé. Duas mulheres vinham em sentido contrário, atravessando pela faixa de pedestre, uma senhora e uma moça, quando o sinal abriu. Nenhum dos motoristas esperou que concluíssem a travessia e iniciaram a aceleração. Imediatamente elas correram do ponto em que estavam – mais ou menos o meio da zebra – para não serem atropeladas. O risco, obviamente, era plausível, pois os carros vieram em sua direção, como que as expulsando do “seu” caminho. Detalhe é que elas mal concluíram a passagem e já sorriam entre si, comentando o susto. Ler mais
1 comentário »Dick Flocaucô era o carnaval em pessoa

Hélverton Baiano
Dick Flocaucô era o carnaval em pessoa, pois até seu nome era meio carnavalizado. Mas dizer em pessoa é muito pouco para o que Dick significava e muito menos ainda para o que o carnaval significava para ele. Caía na folia, mas caía mesmo, não apenas nos cinco dias da festa de Momo, porque o carnaval dele era de, no mínimo, 10 dias, e ele ainda trabalhava para fazê-lo de uma quinzena. Carnaval aqui no Brasil é realmente o tempo do desbunde, da entrega, da furupa, do auê, do fuzuê e do furdunço. Vocês podem não acreditar, mas para Flocaucô era muito mais. Ler mais
2 comentários »
Marcos Caiado
sem guizos
sem ondes
sem direção
nada sei das fontes
das frondes
ou da janela
tudo é neblina:
o topo, a arara
a aquarela.
atmosfera ferida
batendo
encontra a mão…
hoje, só depois
e em braile.
com profile em alemão…
Piscina letal

por Brasigóis Felício
Esta vem de Aldir Blanc, lúcido e equilibrado parceiro de João Bosco, no clássico O bêbado e o equilibrista. Reconto, assim, do meu jeito: João das Mercês, sambista de mão cheia, um dos melhores sujeitos que conheceu, por sua generosidade e bom caráter, passava por um bar boêmio, um buteco junta-cuspe, nos fundões de Botafogo, quando viu Zé Bordel, um cachaceiro inveterado, cabisbaixo, a namorar um copázio de cachaça. Um limão da casa ao lado, escoltava sua ancestral tristeza. Nem um magro torresmo, torrado a esmo, guarnecia sua pobreza crônica - agravada pela sujeira, que o bêbado sem equilíbrio é avesso a água de banho, e por seu estado parecia que estava ali, escornado, a atrair para sua triste figura revoadas de urubus. Ler mais
1413 comentários »A jaula dos demônios

por Valdivino Braz
Levei minha namorada grávida pro terraço do edifício, beijei-lhes os lábios e joguei-a no vazio. Podes crer. Foi massa, vê-la cair lá de cima e esborrachar-se no asfalto, feito uma porca barriguda. Na maior. Pena que eu não estava lá embaixo, pra sentir de perto o impacto do corpo se arrebentando. Saca só, imagine a cena. A merda, cara, é que agora estou aqui sem merla, sem crack, sem uma carreirinha de coca, sem um doce da pesada. Não sabe o que é doce? LSD. Ácido lisérgico. Doideira, meu. Maior barato. E eu aqui sem nem sequer um baseado, um brauzinho básico pra esfumaçar as idéias confusas. Tô aqui nessa zorra, com uma zoeira em minha cabeça, sei lá o que é, um trem assim, umas vozes estranhas, e parece que um bebê chorando, longe, longe, lá dentro, no fundo de mim, dentro da alma, e no inferno da minha cabeça. Mas, se quer saber, de vera que não me esquento com isso não, meu irmão. Tô me lixando, cagando e andando se não tive êxito em tudo que fiz na vida, mas tive muito ecstasy, muita curtição, e agora tô preso aqui, neste fedor de merda e mijo. Quem foi o desgraçado que cagou até entupir a porra do vaso? Por que não consertam a droga da descarga? Isso aqui não é flor que se cheire, e a vida é mesmo uma merda. Me dei mal, mas fico na minha, apesar desta zoeira de grilos metálicos perturbando minhas idéias. Penso até que o bebê sou eu mesmo chorando, quando era pequenininho assim e minha mãe me abandonou na Estação Rodoviária. Me deu um pirulito e, sorrateiramente, sumiu e me deixou lá sozinho, chorando no meio de gente estranha. Pai? Tenho pai não, véi. Se tenho, não sei quem é, nem quero saber. Mas toca essa harmônica de blues aí, meu. Manda ver. Tu não é músico? Manda aí, pô. Ler mais
9 comentários »Os fantoches de vento

por Edival Lourenço
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
T. S. Eliot
-
Eis os fantoches de vento
não aqueles homens ocos de Eliot
esses eram extáticos, taciturnos seres
habitantes de outro tempo - os fantoches
de sopro, não do sopro imanente, divino,
mas do sopro corrente, passante,
o vento que alimenta
o ego dos presentes ícones.
Eis os fantoches de vento,
na esquina, de alegria saltitante. Dê-lhes
vento, ventoinha, senão os fantoches
sem nada por dentro, murcham, dobram
sobre si mesmos em profunda depressão
como os homens que agora somos,
não os circunspectos de Eliot,
mas os frívolos de nosso tempo.
Eis os fantoches de vento
em sua pantomina humana, cuja alegria
é tão mais frenética quanto mais vento
lhes inocula o dínamo soprante
a remedar com requintes de esmero
os homens ocos pós-eliotianos
com sua necessidade infinita de sopro
em seu oco cotidiano.
Eis os fantoches de vento
empalados na vaziez
frivolamente felizes.
Os homens ocos de nosso tempo.