Arquivo de Janeiro de 2008
É isto um homem?

por Enio Vieira
Batismo de sangue (2007), de Helvécio Ratton, é uma boa surpresa entre os inúmeros filmes brasileiros recentes que tratam do período da ditadura militar. Baseado no livro homônimo de Frei Betto, publicado em 1982, o filme recria o episódio da aproximação de frades dominicanos com a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella. Apesar de ser inspirada nas memórias de Frei Betto, a versão para o cinema priorizou dois outros personagens: Frei Tito (interpretado pelo ator Caio Blat) e o delegado Sérgio Paranhos Fleury (por Cássio Gabus Mendes).
O personagem Fleury, criado por Ratton, é muito interessante. Além de torturador-chefe da polícia paulista, ele aparece como uma espécie de guardião da “Pátria”. Numa cena, surge uma tabuleta atrás da mesa de trabalho dele. Nela, está escrita que não há direitos para os que estão contra a pátria. A supressão de direitos (no caso, a tortura) vira slogan para um estado de exceção oficial. Tudo vale para combater os inimigos do país que, no caso, são os comunistas, os frades socialistas. O corpo humano e a memória são os lugares em que a exceção vai se manifestar como violência. Ler mais
3 comentários »Borges, o atualíssimo

por José Carlos Guimarães
O título acima é meio que uma paródia do conto Funes, o memorioso, constante em uma das primeiras coletâneas narrativas de Jorge Luis Borges, Ficções, editada em 1944. Há um dado curioso nesse livro, ou em torno dele, que foi ter sido escrito na década de quarenta do último século. Parece, assim, que estamos diante de um artefato antigo. Ledo engano, embora tenha vindo a lume, para ser exato, há 68 anos atrás. Nessa idade o livro seria já velho: fosse um homem. (Não que não o seja, de certa forma).
Mas por que – indaga o leitor – um dado curioso? Porque não havia naquela época a internet, sequer indícios de que os homens empreenderiam algo tão fantástico. O universo já existia desde sempre, ou pelo menos desde quando foi escrito o primeiro poema épico ou o primeiro livro, quer dizer, no último caso: as primeiras tentativas de armazenar o todo. (d`Alembert foi um desses ambiciosos obreiros, e criou um dos objeto de culto do escritor argentino) Por outras palavras, somente três décadas depois do surgimento deste livro premonitório que se chama Ficções os homens começaram – década de setenta – a edificação concreta de algo mais sutil, e cujo nome pode ser A biblioteca de Babel. Tratá-la por Babel não tem a mínima importância, pois equivale a um reflexo, um efeito comum em Borges. Ler mais
2 comentários »Moça debaixo da chuva: os ínvios caminhos

por Menalton Braff
Uma rua tão melancólica e metalúrgica, tão ocupada com o volume de sua produção industrial que, distraída, parecia há muito ter esquecido no abandono a própria aparência: charme nenhum. Uma rua de paredes sujas e de reboco carcomido, no alto das quais, já perto do beiral, apareciam ridiculamente inúteis algumas janelas estreitas, como se Deus e seus anjos precisassem daquilo para espiar o interior dos galpões que se escondiam para além das paredes e onde pessoas sujas de carvão faziam gestos cujos significados não alcançavam. Ler mais
1 comentário »To be or not to be?

Edival Lourenço
Nem me dou se sou sim ou se sou não
Já nem sei se sou grão ou se sou mó
Se sou um sal ou só um ser de pó
Ou se sou pó de luz do sol em grão
Nem me dou se sou vez ou se sou vão
Já nem sei se sou vau ou sou nó
Se sou um ser do mal ou de ter dó
Dum cão em si sem dom ao rés do chão
Quem diz que ser é ser o sal de Ló?
Quem diz que ser é ter o dom de Jó?
Quem diz que ser tem que ser ás e são?
Que me faz ser de Deus ou ser do cão?
É ter o Tao ou não ter mais que o pão?
— Em prol de ser eu só sei que sou só.
2 comentários »Bárbara e eu (sinopse para um conto ou relato)

por Lauro Marques
Nada demais. Apenas o fel e o mel do cotidiano. Nossos lençóis sendo dobrados pela manhã, marcando a alternância entre dia e noite. Suas saídas para lugar nenhum e as minhas andanças pelo bairro vazio, o relógio que não temos, esquecido. Um pouco lavar as louças (eu), varrer a casa (Bárbara), escutar música e adormecer nos seus braços ou não. Ficar só. Ler um conto de Cortázar ou Sciascia. Lembrar nosso mergulho na Ilha do Breu, nome sintomático, onde sintomaticamente desaparecemos do radar por dois dias seguidos. Bárbara sorri quando não chora. Fosse a vida um barco. Um mar calmo e nós dentro dele. “Pena que não é”, Bárbara sorri, quando não chora. E ali, esquecidos, os dias passam. Ali onde não estamos, Bárbara e eu. Apenas suspeitamos. Ler mais
Sem comentários »Intuito

Hélverton Baiano
Tudo o que há nessa história
na ficção ou aparência
é quimera coincidência.
Sem comentários »A barriga maior que o olho

por Cássia Fernandes
Sabe aquela sensação de quando a gente é menina, véspera de aniversário e a gente pressente ou imagina ou suspira que o dia seguinte será todo nosso, de que um presente nos espera na esquina, no alto do armário, sob mistério, embrulho e laço, de que naquele dia terão cuidado com a gente de propósito, não nos virão entristecer ou contrariar, e mamãe irá preparar a comida preferida e nem irá reclamar a chinela no nosso bumbum da vida? Ler mais
6412 comentários »Não vale um dente de alho
Brasigóis Felício
Para G. Gurdjieff, toda arte é mero acidente, e os artistas são pessoas que pensam ser especiais, por ganharem muito dinheiro ou por copiarem-se uns aos outros. Por viverem a escrever, pintar ou faze música do que lhes ditam suas sugestões e associações mentais, emocionais ou intelectuais, tudo no que fazem é acidental. Caiu na rede, é peixe. Ou, como cinicamente o proclamou um falso compositor carioca, que tornou-se famoso por plagiar sambas de colegas. Uma vez, sendo flagrado por Noel Rosa em roubo explícito de uma composição sua, saiu com esta: “Samba é como passarinho: é de quem pegar primeiro”. Ler mais
2 comentários »O ano do excremento

por Valdivino Braz
Já passando da hora, o famigerado ano de 2007 encerrou seu expediente, deixando marcas profundas na alma dos brasileiros. Um ano que se fechou no vermelho, no que diz respeito aos anseios e esperanças do País, depositados nos homens públicos, eleitos para representarem o povo, alguns dos quais revelaram-se uns descarados canalhas. Excremento da corrupção.
Anseios e esperanças foram frustrados pela sucessão de fatos abomináveis, principalmente os de ordem política, quase que de um modo geral, e particularmente no âmbito do Legislativo, gerando o desencanto e comprometendo a credibilidade dos poderes constituídos e de suas instituições. O pior que pode acontecer para um país — desconfiança e descrença em suas instituições —, acabou de acontecer no Brasil. Ler mais
7 comentários »Plenilúnio

Francisco Perna Filho
Uma bola de fogo cruzou o céu da fazenda e, rodopiante, acompanhou os mesmos movimentos de Natinho em volta da fogueira de São João, por um momento, pareceu coalhada no firmamento, todos a observavam, ao passo que se voltavam para o menino, que também inerte se perdia no pesadelo do esquecimento. A bola saiu do seu descanso aparente, zigzagueou por sete vezes, descendo em disparada de encontro ao peito de Natinho, que se desfez em cinzas. Naquela noite. Ler mais
1 comentário »Desejo e Reparação

Herondes Cezar
O que é mais importante, a literatura ou o cinema? A velha e interessante polêmica ressurge sempre que um grande livro é transposto para a tela. É o caso do filme Desejo e Reparação (2007), adaptado do belo romance Reparação, do escritor inglês Ian McEwan. Terá sido a adaptação bem-sucedida? Ler mais
2 comentários »Hipocondríaco

Edival Lourenço
Alérgico à própria alegria
mas alegre por ser alérgico
o hipocondríaco é o avesso
do próprio avesso introverso
e nesse infernal paradoxo
vive em busca de um mal
que possa vir para o bem
mas com efeito colateral
mal que possa dar conta
do remédio que ele já tem
torce pra que sobrevenha
um desmaio catafórico
ou um choque anafilático
e possa sentir-se eufórico
pelo estado sorumbático.
3 comentários »Porque Picasso é Picasso

por José Carlos Guimarães
Orson Welles reclamara da profissão de cineasta dizendo que, fosse Velazques, teria pintado centenas de telas; entretanto, sendo diretor, realizou apenas alguns filmes. Imaginava que era uma realização pífia. Sua preocupação prova cabalmente que quantidade é relativo, quando o assunto é o gênio: Cidadão Kane, criado por ele, é tido pela maioria dos entendidos como o maior filme de todos os tempos (tinha 24 anos de idade ao realizá-lo). Outro que realizou pouco foi Da Vinci, outro Rembrandt, outros dois menos ainda, Juan Rulfo e Ralph Waldo Ellison. Se número servisse de critério, portanto, esses dois – autor cada qual de um único livro na vida! - não seriam consagrados como são. É claro, há aqueles que excederam em quantidade de publicações, caso de dois grandes expoentes do roman fleuve, Balzac e Zola. À moda da indústria em seu tempo, os dois romancistas franceses produziram em série, num fôlego que parecia não ter fim. Pode-se ainda falar de Shakespeare: das peças que criou, 24 são consideradas obras-primas, o que significa que não existe paralelo com o poeta inglês, na grande vertente da literatura ocidental. Ler mais
Sem comentários »Aviso aos Leitores

Nos dois próximos meses a Revista Bula passará por uma ampla reforma editorial e estrutural. Voltaremos na última semana de março. Enquanto isso continue lendo nossos colaboradores aqui no Blog — que será atualizado diariamente. Pedimos desculpas.
Sem comentários »Curtas e grossas de verão

por Flávio Paranhos
Nazismo e ateísmo para crianças
Comprei dois livros pra minha filha mais velha, Luísa: “O menino do pijama listrado” (Cia. Das Letras), de John Boyne e “George e o segredo do universo” (Ediouro), de Lucy e Stephen Hawking (o físico famoso com grave problema neurológico). O primeiro já virou filme, a ser lançado em 2008, e o segundo é bem capaz que vire também. Li-os antes dela. Discutimos depois. Fiquei preocupado em checar se minha filha, com a mesma idade do protagonista do “Menino do pijama listrado”, nove anos, era tão estúpida quanto ele. Não, ufa! Leiam vocês e me digam: John Boyne escolheu mal a idade do protagonista, ou as crianças alemãs eram imbecis no período da Segunda Guerra? Lembrete: Boyne é irlandês. Já quanto ao dos Hawking (pai e filha), embora menos emocionante (se você for mulherzinha certeza de que vai chorar ao final do Menino…), é mais, digamos, edificante. Edificante na medida em que apresenta como natural uma possibilidade existencial: Deus não existe. Não que eu seja ateu, não sou corajoso o suficiente pra isso (vai que Ele existe mesmo…). Mas considero fundamental a liberdade de pensamento, essa, sim, sagrada. Ler mais
2 comentários »Parceria poética

por Valdivino Braz
Via e-mail, Edival Lourenço enviou-me, em primeira mão, o recente poema de sua autoria, O molho de seus olhos. De imediato, pós-leitura, o poema inspirou-me e também criei um novo texto, que intitulei O cão de estimação. Daí propus ao Edival a parceria dos poemas neste meu Bazar, ele aceitou. Aqui dedicamos os poemas aos possíveis leitores.
*
O MOLHO DE SEUS OLHOS
De vinagre alho e óleo
Seus olhos têm um molho
Quando nele me molho
E vai oleando os refolhos
Da alcachofra dos miolos
O meu coração se espalha
Feito raiz no restolho
Qual fome de fogo em palha
Em lançamento de estolhos
Na ocupação de sua talha
Qual propósito de abrolhos
Jorrando sêmen de metralha
Ávido herdeiro de partilha
Num frenesi sem consolo
Golfando cria pela virilha
Que nunca mais a recolho
E mesmo que seja canalha
Ou equivalha a um trambolho
Segue o gume da navalha
Por atalhos que não escolho
*
O CÃO DE ESTIMAÇÃO
A vida é um crime, um crime colocar filhos no mundo. Contudo, vivemos e filhos fazemos. Assim nos autocondenamos ao inferno do amor eterno. Tal pai, tal filho, o estribilho do nosso inverno. E não é pelos filhos que repetimos o pecado das virilhas? Pai, mãe e filhos, o cão de estimação em família. O cão ladra, a caravana passa e a família se abraça. A paixão, os filhos da paixão, o risco que se corre: a paixão mata, os filhos (es)correm pelo mundo, e os pais (e nós), feito Atlas, levamos um mundo de filhos nas costas. Somos um saco de afetos feitos de carne e osso, com o mapa-mundi da semelhança em nossas omoplatas. Sua alma, sua palma. Os filhos são espelhos de nossas almas. E se o amor nos conforta, o cão já não importa muito. Sai pela porta e ladra para o mundo, enquanto a caravana passa e atravessa o coração do deserto.
fim
4 comentários »Quem move o mundo

por Marcos Fayad
Há anos, quando eu estagiava como psicólogo no Hospital Pinel no Rio de Janeiro, especializado em distúrbios mentais, ouvi uma frase de um interno que jamais esqueci: “Quando eles perceberem que a minha loucura é pura genialidade, será tarde demais, os choques elétricos vão ter acabado com ela”. Ele se referia aos especialistas que aplicavam a convulsoterapia nos pacientes e penso que só teve coragem de me dizer isto porque sabia que, além de psicólogo, era também ator de teatro. Quando o conheci no hospital era um apaixonado pelo escritor Lima Barreto, considerado louco como ele, sabia tudo de sua obra e me ensinou quase tudo o que sei do grande escritor. Meses depois os choques elétricos o reduziram a um vegetal, nem sabia mais quem era Lima Barreto. Num ataque de loucura xinguei o diretor do hospital de louco e torturador fascista e me mandei dali.O tema é sempre intrigante e provoca reflexões e perguntas: quem são os verdadeiros loucos? Os considerados pessoas normais, seguidores de uma ordem universal, mergulhados no trabalho insano de alimentar uma rotina que nunca traz paz e felicidade; freqüentadores de uma sociedade hipócrita que privilegia relações frouxas e profissionais em detrimento dos sentimentos; camufladores de opiniões pessoais que possam provocar polêmica e rejeição; convivas de um banquete indigesto que engolimos em nome da boa convivência, oprimidos pelo eterno receio do que vão pensar os outros…? Parece que as respostas estão embutidas nas próprias perguntas. O fato é que homens considerados normais jamais moveram o mundo, fazem apenas o papel que se espera deles, executam as pequenas tarefas, sonham sonhos possíveis e previsíveis, marcam passo apenas. Estamos carentes de homens que movam o mundo. Meu interesse sempre foi pelos transgressores, os chamados insanos, aqueles que não se enquadraram em empreguinhos públicos e estáveis, atividades corriqueiras, pensamentos provincianos, os que cultivam pequenos poderes ou os que ditam modernidades intelectuais digestivas, os pós-graduados reconhecidos pela massa como os best-sellers, etc… Ler mais
3 comentários »Três instantâneos

por Lauro Marques
Felicidade de Pipa
A febre voltou.
Palavras podem ser deliciosas.
Comê-las.
Com meus olhos
soltos no espaço.
Entre o ziguezaguear feliz de uma pipa e
o trem passeando no
elevado
sobre a rua de carros empilhados.
Baterista cego
Gesto 1:
A vareta abre-se ao comando
do meu braço
desenrolando-se
em câmera lenta.
Antes retraída
em duas partes seguras
pela minha mão
(duas baquetas)
entre minhas pernas
de baterista
cego sentado.
Gesto 2:
Fixo a vareta no chão
meus olhos
(há muito tempo)
fechados
até que paralisem
o trem.
De manhã, ressuscitarei
(poema “gótico” de ano-novo)
Adoro destruir-me.
Destruir-me-ei mil vezes.
Mas não como Cristo.
Que não ressuscitou.
Jamais!
Ressuscitarei como a manhã
Que levemente beija a folha da maçã.
E cairei
de podre!
As virtudes do fumo

por Edival Lourenço
De tempos em tempos uma ala da humanidade se volta contra outra, de modo a considerá-la inferior ou indigna. Às vezes esses levantes ganham contornos extremamente dramáticos. É o que ocorreu, por exemplo, nas cruzadas, de cristãos contra muçulmanos. Na Santa Inquisição, de católicos contra hereges e bruxas. Na Segunda Guerra, de arianos (leia-se nazistas) contra judeus, ciganos, negros e gays. Na Revolução Russa, de proletários contra burgueses. Em cada um destes casos houve matança de milhões e milhões de pessoas. Ler mais
3 comentários »Escada para peixes: ouro de tolo para conservacionistas

por Ronaldo Angelini
A falta de energia elétrica volta a rondar o país comprometendo o já pífio crescimento da economia nacional, pois cerca de 90% da energia brasileira é gerada em reservatórios e São Pedro não foi muito generoso nesta época do ano. Correndo atrás do prejuízo, o governo já mandou acender as termoelétricas, movidas a óleo e carvão, preocupando os que temem o dióxido de carbono na atmosfera. Isto é, quase o mundo todo. Ler mais
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