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Virginia Woolf tentou ‘curar’ sua loucura pelo suicídio

Virginia Woolf

Em 28 de março de 2008, fez 67 anos que a escritora inglesa Virginia Woolf se matou. Virginia, que hoje tende a ser comparada (desfavoravelmente) a James Joyce, que ela considerava (invejosamente) um operário autodidata, morreu aos 59 anos, jogando-se no Rio Ouse, em 1941. A obra de Virginia permanece gerando polêmica. Para alguns, ainda é inovadora. Para outros, teria envelhecido. A revolução de Virginia estaria obscurecida pela revolução de Joyce. Talvez o mais justo seja não comparar os dois autores, percebendo, antes, que há diferenças, apesar de estarem próximos (literalmente), entre eles. Sobre sua vida, é possível saber alguma ou muita coisa, principalmente depois da sensível e abrangente biografia de Quentin Bell…

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Vale a pena ler de novo
Mario Vargas Llosa escreve sobre Guimarães Rosa

Guimarães Rosa

Mario Vargas Llosa

Guimarães Rosa nasceu em 1908 em Minas Gerais. Após fazer estudos de medicina, se instalou numa pequena cidade do sertão, e se engajou como médico voluntário durante as guerras civis que ensangüentaram o Brasil dos anos 30, depois abandonou a medicina para abraçar a carreira diplomática. Foi embaixador do Brasil na Alemanha, na França e na Colômbia, antes de ser responsável pelo serviço de fronteiras do Ministério do Exterior de seu país. Mas detrás destes poucos e ternos dados biográficos, esconde-se uma personalidade estranha, enigmática. Ler mais

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Ricardo Guilherme Dicke: Prisioneiro de um ostracismo cruel

O escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke morreu às 10 horas da quarta-feira, 9, aos 71 anos.

A escritora Hilda Hilst disse que depois de Machado, seria ele o autor mais importante do País. O cineasta Glauber Rocha, no antigo programa Abertura, decretou: Ricardo Guilherme Dicke é o maior escritor vivo do Brasil e ninguém lê, ninguém conhece!. Quase três décadas depois, a frase de Glauber Rocha continua atualíssima. Aos 70 anos, Ricardo Guilherme Dicke continua relegado ao ostracismo. Em uma das últimas e raras entrevistas (republicada nesta edição) o filósofo nascido na Chapada dos Guimarães, especializado em Merleau-Ponty, fala Toada do Esquecido e Sinfonia Eqüestre… Ler mais

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Revista Bula — Edição 204

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17 anos sem Pio Vargas

Pio Vargas em 1987

Pio Vargas ia ser o maior poeta de seu tempo. Mas morreu antes dele. Na manhã de 8 de março de 1991, tinha 26 anos. Sofreu uma parada cardíaca causada por uma overdose de cocaína. Ler mais

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Egotrip

A Revista Bula ganhou novo projeto visual e editorial. Uma das melhores revistas de cultura do país (note que não disse “de Goiás”), a Bula publica, na última edição(198), ensaio do poeta Valdivino Braz a respeito da crítica do brasileiro Afonso Romano de Sant´Anna ao americano Ezra Pound. Padrasto dos concretistas, Pound é um poeta tão ruim quanto o fascismo, que adorava.

Euler de França Belém — Coluna Imprensa 02 de março de 2008

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Revista Bula — Edição 199

Revista Bula — Edição 199

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Os seis minutos mais belos da historia do cinema*


Por Giorgio Agamben

Sancho Pança entra num cinema de uma cidade do interior. Está procurando Dom Quixote e o encontra sentado isolado, fixando o telão. A sala está quase cheia, a galeria — que é uma espécie de “galinheiro” — está inteiramente ocupada por crianças barulhentas. Após algumas tentativas de chegar a D. Quixote, Sancho senta-se de má vontade na platéia, ao lado de uma menina (Dulcinéia?), que lhe oferece um lambe-lambe. A projeção começou, é um filme de época; sobre o telão correm cavaleiros armados, e num certo momento aparece uma mulher em perigo. De repente, Dom Quixote se ergue de pé, desembainha a espada, se precipita contra o telão e os seus golpes começam a cortar o tecido. No telão aparecem ainda a mulher e os cavaleiros, mas o corte negro aberto pela espada de Dom Quixote se alarga cada vez mais, devorando implacavelmente as imagens. No fim, quase nada sobra do telão, vendo-se apenas a estrutura de madeira que o sustentava. O público indignado abandona a sala, mas no “galinheiro” as crianças não param de encorajar fanaticamente Dom Quixote. Só a menina da platéia o fixa com reprovação. Ler mais

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O lado A do cinema goiano

Tacilda Aquino

Carlos Willian, grande amigo, confesso que fiquei surpresa com seu artigo sobre a produção cinematográfica goiana no Jornal Opção. E juro que não entendi o motivo de sua ira. Acho que você foi duro demais, principalmente para um poeta que sabe que fazer cultura em Goiás, independentemente do tipo de manifestação artística, sempre foi um desafio.

Preciso discordar de sua afirmação: “Todavia, o mais trágico da conclusão é que não apenas esses quatro curtas são ruins. Em toda a história do cinema goiano, não se tem idéia de filme algum que tenha valido a pena ter sido feito!”. Preciso discordar porque escrevendo sobre cinema durante tantos anos no Jornal O Popular (de 1986 a 2006) acompanhei de perto a produção goiana e tive a felicidade de assistir muitos bons filmes produzidos não somente neste período, como nos anos do chamado cinema novo. O Azarento, Um Homem de Sorte, dirigidos por João Bennio, por exemplo. E o que dizer do grande José Petrillo que, como produtor, realizou grandes filmes como O Leão do Norte, de Carlos Del Pino, rodado em Pirenópolis, e que em 1974 foi responsável pela produção de A Lenda de Ubirajara, ganhador do prêmio de melhor trilha sonora no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Petrillo fez praticamente tudo à frente e atrás das câmeras. Dirigiu centenas de comerciais, produziu um sem número de documentários e conquistou várias premiações. O mais famoso é Cavalhadas de Pirenópolis, curta-metragem em 35 mm premiado em 1978 com o Troféu Candango no 11º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília. Ler mais

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O CINEMA GOIANO E A SAGA DOS UMBIGOS ESPELHADOS

CENA 1 — ROBNEY BRUNO, ENTRA CORRENDO (MEIO DESAJUSTADO), GRANOFONE NA MÃO, IMPROVISA UM DISCURSO E CHORA

Caros amigos agcvistas, listeiros e simpatizantes.

Quando eu ouço um comentário como esses, do nobre escritor Carlos William Leite, sobre o cinema goiano, um turbilhão de sentimentos ambíguos (lê-se revolta e vergonha) me vem ao coração. Ambíguos porque todos nós sabemos que, apesar da luta que temos travado nesses anos todos, ele em parte, não deixa de ter razão. E não adianta aqui sermos protecionistas e querer justificar a qualidade dos nossos trabalhos pelas condições a que somos submetidos – corte em verbas e tempo escasso (lê-se Lei Municipal e Festcine - Isso sem falar na famigerada Lei Goyazes e Lei Rouanet, que há muito tempo não se tem notícia de algum projeto de cinema produzido por elas). Digo isso, porque o que chega as pessoas que não são da área de cinema é apenas o resultado de um trabalho, ou seja o filme pronto, e nunca a trajetória e as dificuldades que cada um de nós teve pra produzir. O que não deixa de ser natural, pois quando uma pessoa assiste a um filme ele não tem obrigação nenhuma e nem quer saber das condições em que eles foram feitos. Ler mais

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Aprendendo com as encrencas de Britney

por Flávio Paranhos

O texto abaixo é uma tradução minha de um artigo que saiu no NYT de domingo passado. Embora fuja um pouco da área de interesse da Bula, achei o tema interessante. Mas, pra não dizer que não falei de cinema, o texto faz lembrar “De repente, no último verão” (1959), com Elizabeth Taylor, Montogomery Clift e Katharine Hepburn, baseado na peça homônima de Tennessee Williams. Aqueles que, após lerem o artigo, não souberem por que me lembrou o filme, que vão assistí-lo de novo (estou admitindo que todos os milhares de leitores da Bula, sem exceção, já viram esse filme pelo menos uma vez, pelamordedeus, né!). Ler mais

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O farsante das águas ilusórias

por Edival Lourenço

Foi em plena festa da padroeira que ele apareceu. Abriu a lateral da Besta e começou a instalar sua tranqueira: a mesa, que foi desdobrando com habilidades de mágico, uma corneta no suporte já instalado no teto do veículo, um microfone sem fio na lapela e resmungou algumas palavras de um idioma supostamente importado, testando o sistema de som.

Deixou como fundo uma música de número de magia, pegou uma caixa com furos de onde retirou meia dúzia cobras hipnotizadas, que ocuparam uma parte da mesa. Na outra parte colocou uma pirâmide de vidros transparentes com selo azul. Enrolou uma das cobras no pescoço e deu início aos trabalhos, num sotaque indecifrável: Ler mais

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Fio da meada

por Enio Vieira

Os filmes recentes que abordam episódios e experiências da ditadura militar no Brasil têm muita dificuldade em capturar os movimentos múltiplos daquele período. As narrativas cinematográficas se baseiam em fatos isolados e histórias pessoais de maneira linear e sem contradições. “Quase dois irmãos” (2004), de Lúcia Murat, é uma tentativa bem-vinda e arriscada de encontrar os diversos fios históricos que ligam o regime militar aos dias de hoje.

Murat organiza o filme em torno de três épocas: pré-golpe de 1964, anos 1970 e atualidade. As situações narradas estão estruturadas basicamente no encontro da elite letrada com o povo. Essa aproximação – que é a fratura não resolvida da sociedade brasileira – foi uma das principais utopias do pensamento de esquerda no século XX. Um bom achado de “Quase dois irmãos” é mostrar como esse encontro vai se tornando inviável ao longo do tempo. Ler mais

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Assim comia Zaratustra

Woody Allen

Texto publicado na New Yorker / Piauí

“Nenhum filósofo chegou perto de solucionar o problema da culpa e do peso até que Descartes separou mente e corpo, de tal modo que o corpo podia se empanturrar à vontade, enquanto a mente pensava: “E daí? Não sou eu.” A grande questão da filosofia perdura: se a vida não tem sentido, o que se pode fazer com a sopa de letrinhas? Foi Leibniz quem primeiro disse que a gordura consistia em mônadas. Leibniz fazia dieta e exercícios, mas nunca chegou realmente a se livrar de suas mônadas - ou, pelo menos, não daquelas que aderiram às suas coxas. Spinoza, por outro lado, jantava frugalmente porque acreditava que Deus existia em tudo, e é intimidador abocanhar um pãozinho judaico se a gente acha que está lambuzando de mostarda a Causa Primeira de todas as coisas.” Ler mais

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A invasão da poesia

Carinhosamente copiada do blog do Marcos Caiado


por Eberth Vêncio

O ser humano, criatura para lá de estranha, tem vários defeitos. Um dos piores deles é a intolerância, tanto em nível pessoal (relações interpessoais) quanto coletivo (o sujeito lidando com grupos, corporações, comunidades, um país inteiro). Por causa da intolerância, amores eternos minguam, amizades se corrompem, famílias digladiam, irmão desconhece irmão, preconceitos sobrevivem, guerras e dominações repetem-se na História da Humanidade, mesmo antes dela começar a ser escrita, dentro das cavernas, onde as diferenças eram resolvidas com a força insalubre da unha e do cajado. Ler mais

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A dor fundamental

Carlos Willian Leite

não há caminho e
nada valho
meu rir lascivo
é uma coreografia de enganos

eu cresci como crescem
os espantalhos
eu cresci sem planos

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Anywhere out of the world!

por Lauro Marques

― É melhor você aparar os pêlos do nariz antes de falar com o capitão ― disse George.

Marcelo não via nenhuma razão naquilo. Que diabos poderia isso afinal afetar em serem aceitos?

George mostrou o recorte de jornal: Navio de bandeira holandesa contrata tripulação por período determinado. Destino: Porto de Roterdã, com paradas em África e Europa. Requisitos: ser maior de idade e gozar de boa saúde física além de disposição para trabalhar no mar. Diversos postos e renumeração equivalente. Procurar o capitão do navio no porto da cidade.

Por via das dúvidas, Marcelo apanhou a tesourinha que lhe ofereceu George e enquanto mirava-se no espelho do banheiro ouvia George na cozinha preparando um lanche. George morava sozinho e tentava impressionar Marcelo com sua independência. A mãe cozinhava e mandava a comida para ele em tupperwares que eram consumidos semanalmente. Também semanalmente as roupas voltavam limpas e passadas a ferro. Marcelo nunca tinha preparado nem o café. George cortou uma salsicha em dois e jogou junto com a manteiga na frigideira fazendo subir um cheiro agradável. Ler mais

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No avião, em queda livre

por Flávio Paranhos

Ai, meu Deus, o que é pra fazer mesmo?
O que está dizendo? Não há coisa alguma a fazer. Encomende sua alma a Deus, meu filho. Reze!
Não, não. Aquelas instruções… Eu nunca presto atenção.
Ave Maria, cheia de graça…
Como é mesmo? “As máscaras descerão automaticamente…”
O senhor é convosco…
Nunca prestei muita atenção. Sempre achei que sabia tudo de cor.
Bendita sois vós, entre as mulheres…
No começo, em minhas primeiras viagens, fingia que já sabia, ficava lendo jornal com aquele ar blasé, ou seria glacê?
Bendito é o fruto de vosso ventre…
Passei a achar que sabia tudo mesmo.
Jesus.
Jesus! Ai Jesus, o que foi?
Santa Maria, Mãe de Deus…
Como era mesmo? “Máscaras cairão automaticamente…” Crianças primeiro… “Passageiros acompanhados de crianças”… Não, não. Isso era pra embarcar…
Rogai por nós…
Peraí. Eu me lembro. Primeiro as máscaras na gente, depois nas crianças… Cadê as máscaras? Ler mais

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Jô Soares caindo como um pato na conversa de Omar Khayyám — o maior 171 da história

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Nós e os políticos: o exemplo que vem de cima


por Jose Carlos Guimarães

Dia desses chegava eu à Avenida Paranaíba descendo a Goiás, a pé. Duas mulheres vinham em sentido contrário, atravessando pela faixa de pedestre, uma senhora e uma moça, quando o sinal abriu. Nenhum dos motoristas esperou que concluíssem a travessia e iniciaram a aceleração. Imediatamente elas correram do ponto em que estavam – mais ou menos o meio da zebra – para não serem atropeladas. O risco, obviamente, era plausível, pois os carros vieram em sua direção, como que as expulsando do “seu” caminho. Detalhe é que elas mal concluíram a passagem e já sorriam entre si, comentando o susto. Ler mais

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Dick Flocaucô era o carnaval em pessoa

Hélverton Baiano

Dick Flocaucô era o carnaval em pessoa, pois até seu nome era meio carnavalizado. Mas dizer em pessoa é muito pouco para o que Dick significava e muito menos ainda para o que o carnaval significava para ele. Caía na folia, mas caía mesmo, não apenas nos cinco dias da festa de Momo, porque o carnaval dele era de, no mínimo, 10 dias, e ele ainda trabalhava para fazê-lo de uma quinzena. Carnaval aqui no Brasil é realmente o tempo do desbunde, da entrega, da furupa, do auê, do fuzuê e do furdunço. Vocês podem não acreditar, mas para Flocaucô era muito mais. Ler mais

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Marcos Caiado

sem guizos
sem ondes
sem direção

nada sei das fontes
das frondes
ou da janela

tudo é neblina:
o topo, a arara
a aquarela.

atmosfera ferida
batendo
encontra a mão…

hoje, só depois
e em braile.
com profile em alemão…

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Piscina letal

por Brasigóis Felício

Esta vem de Aldir Blanc, lúcido e equilibrado parceiro de João Bosco, no clássico O bêbado e o equilibrista. Reconto, assim, do meu jeito: João das Mercês, sambista de mão cheia, um dos melhores sujeitos que conheceu, por sua generosidade e bom caráter, passava por um bar boêmio, um buteco junta-cuspe, nos fundões de Botafogo, quando viu Zé Bordel, um cachaceiro inveterado, cabisbaixo, a namorar um copázio de cachaça. Um limão da casa ao lado, escoltava sua ancestral tristeza. Nem um magro torresmo, torrado a esmo, guarnecia sua pobreza crônica - agravada pela sujeira, que o bêbado sem equilíbrio é avesso a água de banho, e por seu estado parecia que estava ali, escornado, a atrair para sua triste figura revoadas de urubus. Ler mais

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A jaula dos demônios

por Valdivino Braz

Levei minha namorada grávida pro terraço do edifício, beijei-lhes os lábios e joguei-a no vazio. Podes crer. Foi massa, vê-la cair lá de cima e esborrachar-se no asfalto, feito uma porca barriguda. Na maior. Pena que eu não estava lá embaixo, pra sentir de perto o impacto do corpo se arrebentando. Saca só, imagine a cena. A merda, cara, é que agora estou aqui sem merla, sem crack, sem uma carreirinha de coca, sem um doce da pesada. Não sabe o que é doce? LSD. Ácido lisérgico. Doideira, meu. Maior barato. E eu aqui sem nem sequer um baseado, um brauzinho básico pra esfumaçar as idéias confusas. Tô aqui nessa zorra, com uma zoeira em minha cabeça, sei lá o que é, um trem assim, umas vozes estranhas, e parece que um bebê chorando, longe, longe, lá dentro, no fundo de mim, dentro da alma, e no inferno da minha cabeça. Mas, se quer saber, de vera que não me esquento com isso não, meu irmão. Tô me lixando, cagando e andando se não tive êxito em tudo que fiz na vida, mas tive muito ecstasy, muita curtição, e agora tô preso aqui, neste fedor de merda e mijo. Quem foi o desgraçado que cagou até entupir a porra do vaso? Por que não consertam a droga da descarga? Isso aqui não é flor que se cheire, e a vida é mesmo uma merda. Me dei mal, mas fico na minha, apesar desta zoeira de grilos metálicos perturbando minhas idéias. Penso até que o bebê sou eu mesmo chorando, quando era pequenininho assim e minha mãe me abandonou na Estação Rodoviária. Me deu um pirulito e, sorrateiramente, sumiu e me deixou lá sozinho, chorando no meio de gente estranha. Pai? Tenho pai não, véi. Se tenho, não sei quem é, nem quero saber. Mas toca essa harmônica de blues aí, meu. Manda ver. Tu não é músico? Manda aí, pô. Ler mais

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Os fantoches de vento

por Edival Lourenço

    Nós somos os homens ocos

    Os homens empalhados

    Uns nos outros amparados

    O elmo cheio de nada. Ai de nós!

T. S. Eliot

    Eis os fantoches de vento

    não aqueles homens ocos de Eliot

    esses eram extáticos, taciturnos seres

    habitantes de outro tempo - os fantoches

    de sopro, não do sopro imanente, divino,

    mas do sopro corrente, passante,

    o vento que alimenta

    o ego dos presentes ícones.

    Eis os fantoches de vento,

    na esquina, de alegria saltitante. Dê-lhes

    vento, ventoinha, senão os fantoches

    sem nada por dentro, murcham, dobram

    sobre si mesmos em profunda depressão

    como os homens que agora somos,

    não os circunspectos de Eliot,

    mas os frívolos de nosso tempo.

    Eis os fantoches de vento

    em sua pantomina humana, cuja alegria

    é tão mais frenética quanto mais vento

    lhes inocula o dínamo soprante

    a remedar com requintes de esmero

    os homens ocos pós-eliotianos

    com sua necessidade infinita de sopro

    em seu oco cotidiano.

    Eis os fantoches de vento

    empalados na vaziez

    frivolamente felizes.

    Os homens ocos de nosso tempo.

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Bebel Giberto

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É isto um homem?

por Enio Vieira

Batismo de sangue (2007), de Helvécio Ratton, é uma boa surpresa entre os inúmeros filmes brasileiros recentes que tratam do período da ditadura militar. Baseado no livro homônimo de Frei Betto, publicado em 1982, o filme recria o episódio da aproximação de frades dominicanos com a Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella. Apesar de ser inspirada nas memórias de Frei Betto, a versão para o cinema priorizou dois outros personagens: Frei Tito (interpretado pelo ator Caio Blat) e o delegado Sérgio Paranhos Fleury (por Cássio Gabus Mendes).

O personagem Fleury, criado por Ratton, é muito interessante. Além de torturador-chefe da polícia paulista, ele aparece como uma espécie de guardião da “Pátria”. Numa cena, surge uma tabuleta atrás da mesa de trabalho dele. Nela, está escrita que não há direitos para os que estão contra a pátria. A supressão de direitos (no caso, a tortura) vira slogan para um estado de exceção oficial. Tudo vale para combater os inimigos do país que, no caso, são os comunistas, os frades socialistas. O corpo humano e a memória são os lugares em que a exceção vai se manifestar como violência. Ler mais

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Borges, o atualíssimo

por José Carlos Guimarães

O título acima é meio que uma paródia do conto Funes, o memorioso, constante em uma das primeiras coletâneas narrativas de Jorge Luis Borges, Ficções, editada em 1944. Há um dado curioso nesse livro, ou em torno dele, que foi ter sido escrito na década de quarenta do último século. Parece, assim, que estamos diante de um artefato antigo. Ledo engano, embora tenha vindo a lume, para ser exato, há 68 anos atrás. Nessa idade o livro seria já velho: fosse um homem. (Não que não o seja, de certa forma).

Mas por que – indaga o leitor – um dado curioso? Porque não havia naquela época a internet, sequer indícios de que os homens empreenderiam algo tão fantástico. O universo já existia desde sempre, ou pelo menos desde quando foi escrito o primeiro poema épico ou o primeiro livro, quer dizer, no último caso: as primeiras tentativas de armazenar o todo. (d`Alembert foi um desses ambiciosos obreiros, e criou um dos objeto de culto do escritor argentino) Por outras palavras, somente três décadas depois do surgimento deste livro premonitório que se chama Ficções os homens começaram – década de setenta – a edificação concreta de algo mais sutil, e cujo nome pode ser A biblioteca de Babel. Tratá-la por Babel não tem a mínima importância, pois equivale a um reflexo, um efeito comum em Borges. Ler mais

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As melhores capas de livros de 2007

Segundo a The Book Design Review

Via Favoritos

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Moça debaixo da chuva: os ínvios caminhos

por Menalton Braff

Uma rua tão melancólica e metalúrgica, tão ocupada com o volume de sua produção industrial que, distraída, parecia há muito ter esquecido no abandono a própria aparência: charme nenhum. Uma rua de paredes sujas e de reboco carcomido, no alto das quais, já perto do beiral, apareciam ridiculamente inúteis algumas janelas estreitas, como se Deus e seus anjos precisassem daquilo para espiar o interior dos galpões que se escondiam para além das paredes e onde pessoas sujas de carvão faziam gestos cujos significados não alcançavam. Ler mais

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To be or not to be?

Edival Lourenço

Nem me dou se sou sim ou se sou não

Já nem sei se sou grão ou se sou mó

Se sou um sal ou só um ser de pó

Ou se sou pó de luz do sol em grão

Nem me dou se sou vez ou se sou vão

Já nem sei se sou vau ou sou nó

Se sou um ser do mal ou de ter dó

Dum cão em si sem dom ao rés do chão

Quem diz que ser é ser o sal de Ló?

Quem diz que ser é ter o dom de Jó?

Quem diz que ser tem que ser ás e são?

Que me faz ser de Deus ou ser do cão?

É ter o Tao ou não ter mais que o pão?

— Em prol de ser eu só sei que sou só.

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Bárbara e eu (sinopse para um conto ou relato)

por Lauro Marques

Nada demais. Apenas o fel e o mel do cotidiano. Nossos lençóis sendo dobrados pela manhã, marcando a alternância entre dia e noite. Suas saídas para lugar nenhum e as minhas andanças pelo bairro vazio, o relógio que não temos, esquecido. Um pouco lavar as louças (eu), varrer a casa (Bárbara), escutar música e adormecer nos seus braços ou não. Ficar só. Ler um conto de Cortázar ou Sciascia. Lembrar nosso mergulho na Ilha do Breu, nome sintomático, onde sintomaticamente desaparecemos do radar por dois dias seguidos. Bárbara sorri quando não chora. Fosse a vida um barco. Um mar calmo e nós dentro dele. “Pena que não é”, Bárbara sorri, quando não chora. E ali, esquecidos, os dias passam. Ali onde não estamos, Bárbara e eu. Apenas suspeitamos. Ler mais

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Louis Armstrong e Danny Kaye

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Intuito

Hélverton Baiano

Tudo o que há nessa história

na ficção ou aparência

é quimera coincidência.

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A barriga maior que o olho

por Cássia Fernandes

Sabe aquela sensação de quando a gente é menina, véspera de aniversário e a gente pressente ou imagina ou suspira que o dia seguinte será todo nosso, de que um presente nos espera na esquina, no alto do armário, sob mistério, embrulho e laço, de que naquele dia terão cuidado com a gente de propósito, não nos virão entristecer ou contrariar, e mamãe irá preparar a comida preferida e nem irá reclamar a chinela no nosso bumbum da vida? Ler mais

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Não vale um dente de alho

Brasigóis Felício

Para G. Gurdjieff, toda arte é mero acidente, e os artistas são pessoas que pensam ser especiais, por ganharem muito dinheiro ou por copiarem-se uns aos outros. Por viverem a escrever, pintar ou faze música do que lhes ditam suas sugestões e associações mentais, emocionais ou intelectuais, tudo no que fazem é acidental. Caiu na rede, é peixe. Ou, como cinicamente o proclamou um falso compositor carioca, que tornou-se famoso por plagiar sambas de colegas. Uma vez, sendo flagrado por Noel Rosa em roubo explícito de uma composição sua, saiu com esta: “Samba é como passarinho: é de quem pegar primeiro”. Ler mais

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O ano do excremento

por Valdivino Braz

Já passando da hora, o famigerado ano de 2007 encerrou seu expediente, deixando marcas profundas na alma dos brasileiros. Um ano que se fechou no vermelho, no que diz respeito aos anseios e esperanças do País, depositados nos homens públicos, eleitos para representarem o povo, alguns dos quais revelaram-se uns descarados canalhas. Excremento da corrupção.

Anseios e esperanças foram frustrados pela sucessão de fatos abomináveis, principalmente os de ordem política, quase que de um modo geral, e particularmente no âmbito do Legislativo, gerando o desencanto e comprometendo a credibilidade dos poderes constituídos e de suas instituições. O pior que pode acontecer para um país — desconfiança e descrença em suas instituições —, acabou de acontecer no Brasil. Ler mais

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Marlon Brando — Recitando — Os Homens Ocos — Apocalypse Now

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Plenilúnio

Francisco Perna Filho

Uma bola de fogo cruzou o céu da fazenda e, rodopiante, acompanhou os mesmos movimentos de Natinho em volta da fogueira de São João, por um momento, pareceu coalhada no firmamento, todos a observavam, ao passo que se voltavam para o menino, que também inerte se perdia no pesadelo do esquecimento. A bola saiu do seu descanso aparente, zigzagueou por sete vezes, descendo em disparada de encontro ao peito de Natinho, que se desfez em cinzas. Naquela noite. Ler mais

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Desejo e Reparação

Herondes Cezar

O que é mais importante, a literatura ou o cinema? A velha e interessante polêmica ressurge sempre que um grande livro é transposto para a tela. É o caso do filme Desejo e Reparação (2007), adaptado do belo romance Reparação, do escritor inglês Ian McEwan. Terá sido a adaptação bem-sucedida? Ler mais

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Hipocondríaco

Edival Lourenço

Alérgico à própria alegria

mas alegre por ser alérgico

o hipocondríaco é o avesso

do próprio avesso introverso

e nesse infernal paradoxo

vive em busca de um mal

que possa vir para o bem

mas com efeito colateral

mal que possa dar conta

do remédio que ele já tem

torce pra que sobrevenha

um desmaio catafórico

ou um choque anafilático

e possa sentir-se eufórico

pelo estado sorumbático.

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Porque Picasso é Picasso

por José Carlos Guimarães

Orson Welles reclamara da profissão de cineasta dizendo que, fosse Velazques, teria pintado centenas de telas; entretanto, sendo diretor, realizou apenas alguns filmes. Imaginava que era uma realização pífia. Sua preocupação prova cabalmente que quantidade é relativo, quando o assunto é o gênio: Cidadão Kane, criado por ele, é tido pela maioria dos entendidos como o maior filme de todos os tempos (tinha 24 anos de idade ao realizá-lo). Outro que realizou pouco foi Da Vinci, outro Rembrandt, outros dois menos ainda, Juan Rulfo e Ralph Waldo Ellison. Se número servisse de critério, portanto, esses dois – autor cada qual de um único livro na vida! - não seriam consagrados como são. É claro, há aqueles que excederam em quantidade de publicações, caso de dois grandes expoentes do roman fleuve, Balzac e Zola. À moda da indústria em seu tempo, os dois romancistas franceses produziram em série, num fôlego que parecia não ter fim. Pode-se ainda falar de Shakespeare: das peças que criou, 24 são consideradas obras-primas, o que significa que não existe paralelo com o poeta inglês, na grande vertente da literatura ocidental. Ler mais

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Aviso aos Leitores

Nos dois próximos meses a Revista Bula passará por uma ampla reforma editorial e estrutural. Voltaremos na última semana de março. Enquanto isso continue lendo nossos colaboradores aqui no Blog — que será atualizado diariamente. Pedimos desculpas.

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Curtas e grossas de verão

por Flávio Paranhos

Nazismo e ateísmo para crianças

Comprei dois livros pra minha filha mais velha, Luísa: “O menino do pijama listrado” (Cia. Das Letras), de John Boyne e “George e o segredo do universo” (Ediouro), de Lucy e Stephen Hawking (o físico famoso com grave problema neurológico). O primeiro já virou filme, a ser lançado em 2008, e o segundo é bem capaz que vire também. Li-os antes dela. Discutimos depois. Fiquei preocupado em checar se minha filha, com a mesma idade do protagonista do “Menino do pijama listrado”, nove anos, era tão estúpida quanto ele. Não, ufa! Leiam vocês e me digam: John Boyne escolheu mal a idade do protagonista, ou as crianças alemãs eram imbecis no período da Segunda Guerra? Lembrete: Boyne é irlandês. Já quanto ao dos Hawking (pai e filha), embora menos emocionante (se você for mulherzinha certeza de que vai chorar ao final do Menino…), é mais, digamos, edificante. Edificante na medida em que apresenta como natural uma possibilidade existencial: Deus não existe. Não que eu seja ateu, não sou corajoso o suficiente pra isso (vai que Ele existe mesmo…). Mas considero fundamental a liberdade de pensamento, essa, sim, sagrada. Ler mais

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Parceria poética

por Valdivino Braz

Via e-mail, Edival Lourenço enviou-me, em primeira mão, o recente poema de sua autoria, O molho de seus olhos. De imediato, pós-leitura, o poema inspirou-me e também criei um novo texto, que intitulei O cão de estimação. Daí propus ao Edival a parceria dos poemas neste meu Bazar, ele aceitou. Aqui dedicamos os poemas aos possíveis leitores.

*

O MOLHO DE SEUS OLHOS

De vinagre alho e óleo
Seus olhos têm um molho
Quando nele me molho
E vai oleando os refolhos

Da alcachofra dos miolos
O meu coração se espalha
Feito raiz no restolho
Qual fome de fogo em palha

Em lançamento de estolhos
Na ocupação de sua talha
Qual propósito de abrolhos
Jorrando sêmen de metralha

Ávido herdeiro de partilha
Num frenesi sem consolo
Golfando cria pela virilha
Que nunca mais a recolho

E mesmo que seja canalha
Ou equivalha a um trambolho
Segue o gume da navalha
Por atalhos que não escolho
*

O CÃO DE ESTIMAÇÃO

A vida é um crime, um crime colocar filhos no mundo. Contudo, vivemos e filhos fazemos. Assim nos autocondenamos ao inferno do amor eterno. Tal pai, tal filho, o estribilho do nosso inverno. E não é pelos filhos que repetimos o pecado das virilhas? Pai, mãe e filhos, o cão de estimação em família. O cão ladra, a caravana passa e a família se abraça. A paixão, os filhos da paixão, o risco que se corre: a paixão mata, os filhos (es)correm pelo mundo, e os pais (e nós), feito Atlas, levamos um mundo de filhos nas costas. Somos um saco de afetos feitos de carne e osso, com o mapa-mundi da semelhança em nossas omoplatas. Sua alma, sua palma. Os filhos são espelhos de nossas almas. E se o amor nos conforta, o cão já não importa muito. Sai pela porta e ladra para o mundo, enquanto a caravana passa e atravessa o coração do deserto.

fim

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Quem move o mundo

Desenho de Marcos Caiado
por Marcos Fayad

Há anos, quando eu estagiava como psicólogo no Hospital Pinel no Rio de Janeiro, especializado em distúrbios mentais, ouvi uma frase de um interno que jamais esqueci: “Quando eles perceberem que a minha loucura é pura genialidade, será tarde demais, os choques elétricos vão ter acabado com ela”. Ele se referia aos especialistas que aplicavam a convulsoterapia nos pacientes e penso que só teve coragem de me dizer isto porque sabia que, além de psicólogo, era também ator de teatro. Quando o conheci no hospital era um apaixonado pelo escritor Lima Barreto, considerado louco como ele, sabia tudo de sua obra e me ensinou quase tudo o que sei do grande escritor. Meses depois os choques elétricos o reduziram a um vegetal, nem sabia mais quem era Lima Barreto. Num ataque de loucura xinguei o diretor do hospital de louco e torturador fascista e me mandei dali.O tema é sempre intrigante e provoca reflexões e perguntas: quem são os verdadeiros loucos? Os considerados pessoas normais, seguidores de uma ordem universal, mergulhados no trabalho insano de alimentar uma rotina que nunca traz paz e felicidade; freqüentadores de uma sociedade hipócrita que privilegia relações frouxas e profissionais em detrimento dos sentimentos; camufladores de opiniões pessoais que possam provocar polêmica e rejeição; convivas de um banquete indigesto que engolimos em nome da boa convivência, oprimidos pelo eterno receio do que vão pensar os outros…? Parece que as respostas estão embutidas nas próprias perguntas. O fato é que homens considerados normais jamais moveram o mundo, fazem apenas o papel que se espera deles, executam as pequenas tarefas, sonham sonhos possíveis e previsíveis, marcam passo apenas. Estamos carentes de homens que movam o mundo. Meu interesse sempre foi pelos transgressores, os chamados insanos, aqueles que não se enquadraram em empreguinhos públicos e estáveis, atividades corriqueiras, pensamentos provincianos, os que cultivam pequenos poderes ou os que ditam modernidades intelectuais digestivas, os pós-graduados reconhecidos pela massa como os best-sellers, etc… Ler mais

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Três instantâneos

por Lauro Marques

Felicidade de Pipa

A febre voltou.

Palavras podem ser deliciosas.

Comê-las.

Com meus olhos

soltos no espaço.

Entre o ziguezaguear feliz de uma pipa e
o trem passeando no
elevado

sobre a rua de carros empilhados.

Baterista cego

Gesto 1:
A vareta abre-se ao comando
do meu braço
desenrolando-se
em câmera lenta.

Antes retraída
em duas partes seguras
pela minha mão
(duas baquetas)
entre minhas pernas
de baterista
cego sentado.

Gesto 2:
Fixo a vareta no chão
meus olhos
(há muito tempo)
fechados
até que paralisem
o trem.

De manhã, ressuscitarei
(poema “gótico” de ano-novo)

Adoro destruir-me.
Destruir-me-ei mil vezes.
Mas não como Cristo.
Que não ressuscitou.
Jamais!
Ressuscitarei como a manhã
Que levemente beija a folha da maçã.
E cairei
de podre!

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As virtudes do fumo

por Edival Lourenço

De tempos em tempos uma ala da humanidade se volta contra outra, de modo a considerá-la inferior ou indigna. Às vezes esses levantes ganham contornos extremamente dramáticos. É o que ocorreu, por exemplo, nas cruzadas, de cristãos contra muçulmanos. Na Santa Inquisição, de católicos contra hereges e bruxas. Na Segunda Guerra, de arianos (leia-se nazistas) contra judeus, ciganos, negros e gays. Na Revolução Russa, de proletários contra burgueses. Em cada um destes casos houve matança de milhões e milhões de pessoas. Ler mais

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Escada para peixes: ouro de tolo para conservacionistas

por Ronaldo Angelini

A falta de energia elétrica volta a rondar o país comprometendo o já pífio crescimento da economia nacional, pois cerca de 90% da energia brasileira é gerada em reservatórios e São Pedro não foi muito generoso nesta época do ano. Correndo atrás do prejuízo, o governo já mandou acender as termoelétricas, movidas a óleo e carvão, preocupando os que temem o dióxido de carbono na atmosfera. Isto é, quase o mundo todo. Ler mais

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